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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Corrupção, greve da PM e privatização: o PT só não aprenderá se não fizer a lição de casa

por Bolívar Lamounier

Caminhando para o seu décimo ano de poder na esfera federal, o PT continua muito aquém do que deveria ser, a meu juízo, para merecer as imensas votações que têm recebido.

Para um partido que sabidamente aposta num projeto de longo prazo – e periga realmente de permanecer no poder por mais tempo -, ainda lhe falta amadurecimento intelectual e político, competência técnica e senso de responsabilidade.

Essa é a minha opinião; e quem de vez em quando me lê, petista ou não petista, sabe que não há novidade alguma no que estou dizendo. Faz um bom tempo que venho dizendo isso.

Posso imaginar alguns leitores já de dedo em riste: “e o PSDB? Por que não fala do PSDB?” Eu poderia responder essa pergunta de várias formas, mas nenhuma delas tem realmente a ver com o que me ocorre escrever hoje.

O que eu quero dizer é muito simples. Para mim, o PT no poder vem tendo um desempenho horrível, mas eu ainda prefiro esse PT atual ao dos velhos tempos. Sim, eu sei: o PT atual não separa os patrimônios público e privado com o rigor que a Constituição prescreve; não joga o jogo democrático com a lealdade e a responsabilidade desejáveis, e não se notabiliza pela coerência em relação aos princípios que costumava proclamar. Mesmo assim, como comecei a dizer, esse PT me parece melhor , muito melhor – por razões que exporei em seguida -, que o PT das catacumbas.

Como preferir o PT atual àquele dos primórdios, que se proclamava tão puro de intenções, que prometia ouvir todo mundo o tempo todo sobre todos os assuntos, enfim aquele que semeou tantas esperanças?

Ora, exatamente porque aquele PT original só fazia isso: apresentava-se como um paladino da moral e da justiça, esparramava uma infinidade de tolices sobre “democracia direta” pelo Brasil afora, e despertava esperanças. Milhões de adeptos e eleitores não entenderam direito o script, mas o lance era converter toda aquela pureza e todas aquelas esperanças em capital político.

Para efeito de raciocínio, podemos dizer que o capital político era de três tipos, mas é óbvio que os três se interligavam e se alimentavam mutuamente : (1) capital sob a forma de acesso às comunicações para criticar a “elite” – ou seja, para dizer que todos os outros (políticos, empresários, jornais etc) compunham uma elite compacta, gananciosa, e era a única responsável pelas mazelas sociais, educacionais etc do Brasil; (2) capital eleitoral, ou seja, votos na urna e uma vasta mão-de-obra: a famosa “militância”; (3) capital sob a forma de financiamento ao partido.

Faço aqui uma pausa, pois já percebo a impaciência de alguns leitores. Estou então dizendo que tudo foi uma grande farsa? Que os fundadores e dirigentes do PT se valeram da credulidade de milhões de brasileiros? Que lhes venderam essa empulhação sem tamanho?

É claro que não. De modo algum. Se eu pensasse isso, que sentido haveria em contrapor o PT malandro dos tempos atuais com o PT “puro” de priscas eras? Do que os articuladores e estrategistas pensaram, eu não faço a menor idéia. O que afirmo sem pestanejar é que muita gente se deixou levar por aquele clima de cristianismo primitivo, acreditando ver pureza e ética onde a superficialidade e o maniqueísmo eram os produtos de fato abundantes. Se me perguntarem, então, por que o PT antigo me parece pior que o atual, eu respondo rápido e rasteiro: porque prefiro a realidade, por complexa e dura que ela seja, às conhecidas fantasias do romantismo político. Porque sempre preferi Flaubert, ou Machado, ou Nelson Rodrigues a Madame Deli.

Acabei me estendendo e não expliquei o por que deste post. Por que cargas d’água, justo hoje, encasquetei de pensar sobre o PT?

Por uma, ou melhor, por três razões muito simples, coincidentemente estampadas ao mesmo tempo nos jornais de hoje.

Lá em cima eu expressei um certo desgosto ante o modo petista de lidar com a separação entre os patrimônios público e privado, e logo hoje a imprensa noticia a posse do novo ministro das Cidades. Eu suponho que a presidente Dilma, que já se viu forçada a demitir mais de meia dúzia por corrupção, deve ter examinado com atenção as credenciais do mais novo integrante de sua equipe de governo.

Eu disse também que o PT não parece compreender direito certos requisitos de lealdade e responsabilidade que a vida pública envolve. Poucos dias atrás, quando da ação de reintegração de posse na favela Pinheirinho, um integrante da legenda que no momento ocupa um cargo de alta responsabilidade se valeu descaradamente dos recursos de comunicação do Planalto para tentar solapar a autoridade do governador de São Paulo. Diante dos acontecimentos ora em curso na Bahia – estado governado pelo PT -, o referido personagem faria bem em meditar aonde o país chegaria se todos os protagonistas políticos optassem por se comportar como ele diante de situações de tal gravidade.

Eu também assinalei que os petistas, uma vez chegados ao governo, não se notabilizam por comportamentos notavelmente coerentes com os princípios que costumavam proclamar. Ainda bem, isso é ótimo – me permito agora acrescentar. Foi o que eu disse em 2003, quando o recém-eleito presidente Lula descartou pura e simplesmente os seus resquícios de romantismo econômico e deu continuidade às políticas do presidente Fernando Henrique. E em nome de quê eu haveria de negar o meu aplauso à incoerência que se materializou hoje?

Hoje, com efeito, os jornais fizeram a cobertura do leilão de privatização de três aeroportos. Um sucesso, sem dúvida, não só pelos valores envolvidos, mas também pela razoável confiança com que a Fifa e o organismo brasileiro responsável pela organização da Copa do Mundo passam a trabalhar a partir deste momento. Mesmo se ficarem aquém do ideal, as condições aeroportuárias de 2014 já começam a sair da condição de fiasco anunciado em que se encontravam.

Não me surpreenderei se algum petista retardatário se referir à presidente Dilma como uma “vendida ao neoliberalismo”, mas, convenhamos, resquícios ideológicos, um aqui, outro ali, sempre ficam. Nenhum processo político zera completamente a pauta – e me parece muito bom que assim seja.

Eis, portanto, o resumo da ópera: (1) só por ser parte da realidade e não da fantasia, o PT atual já apresentava melhoras sensíveis em relação ao seu antecedente romântico; (2) mas a realidade política e econômica vem-lhe oferecendo numerosos temas para reflexão e chances de amadurecimento. Ele só não as aproveitará plenamente se não quiser.

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