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sábado, 21 de agosto de 2010

Nas democracias, é o povo quem passa o poder adiante; no regime lulo-petista...

via Reinaldo Azevedo | VEJA.com de Reinaldo Azevedo em 18/08/10

Escrevi ontem um texto que eu chamaria de "bastante técnico" sobre o horário eleitoral dos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT).  Mas quê… Os petralhas ficaram furiosos mesmo assim, quase exigindo — como se, aqui, pudessem exigir alguma coisa — que eu reconhecesse o que consideram a brutal superioridade do programa petista. Para eles, foi algo "acachapante". Lula, como dizem, "matou a pau". Antevejo que será isso o que se vai ler em boa parte da imprensa daqui a pouco — se é que isso já não está no ar. O que pretendem? Que eu também me deixe seduzir pela estética do videoclip oficialista-místico-patriótico? Via isso no Canal 100 nos cinemas quando criança. O lulo-petismo, no que concerne à estética, é um mero aggiornamento da ditadura militar. Ora, que o programa é, no gênero, bem-feito, isso eu reconheci de cara. Que ele seja a síntese de uma forma muito particular de desprestígio à democracia, disso, no entanto, não tenho dúvida. É claro que os coleguinhas, com raras exceções, tendem a ignorar esse particular, para eles irrelevante, ocupados que estão em resolver logo a eleição, no primeiro turno. Por isso existo, não é? Ou seria mais um deles… Adiante.
A música-tema não abre espaço para interpretações alternativas. Estaríamos diante de uma, chamaria, "sucessão soberana". Assim como os monarcas absolutistas fazem os seus sucessores, Lula, na peça levada ao ar pelo PT, transfere a Coroa a Dilma, junto com algo que lhe pertence, que é de sua propriedade: o povo. Os professores de semiótica das universidades deveriam estar exultantes com o rico material de que dispõem para análise. Até na esfera da narrativa, a visão autoritária da política e do poder se revela. Vejamos:
- Nas democracias, é o povo quem passa o poder adiante; no regime lulo-petista, é o mandatário quem tenta passar o povo adiante;
- Nas democracias, o povo é sempre o sujeito; no regime lulo-petista, o povo é só objeto direto;
- Nas democracias, o povo concede o poder ao mandatário; no regime lulo-petista, o povo é concedido ao mandatário — só é sujeito na voz passiva…
Há, pois, uma grande coerência entre a estrutura da narrativa e o exercício mesmo do poder. Ou vejamos:
Deixo em tuas mãos o meu povo
E tudo o que mais amei
Mas só deixo porque sei
Que vais continuar o que fiz.
Notem que Lula só transfere o objeto direto para Dilma porque "sabe" que ela vai continuar a sua obra — e isso sugere que ele poderia, pois, não tê-lo feito, passando, se fosse o caso, o objeto para outrem. O que nos leva a uma outra conclusão: Lula não é mais aquele que foi eleito para representar milhões. Não! Ele tomou o lugar do povo e o substituiu. Nessa perspectiva, o regime democrático — e, pois, a realização de eleições — se tornariam mero ritual homologatório da vontade de um só.
É claro que essa construção nada tem a ver com democracia — a menos que algum teórico resolva me provar o contrário; fica o desafio. Aqui e ali noto candidatos a intelectuais do regime — já não mais restritos aos antigos círculos do petismo; há muita gente querendo participar do festim — que se encantam com esse novo momento, a tal, como chamam, "nova era democrática" (sobre a qual já escrevi aqui). Pretendem que Lula só alcançou essa condição porque, afinal, fez um bom governo etc e tal…
Notável sandice essa! Então um governante faz, vá lá, um bom governo, como alguns querem, e isso lhe daria especial licença para enxovalhar a mesma democracia que o elegeu? A menos que alguém acredite que uma propaganda como essa, com essas características, seja exemplo da fina flor do espírito democrático. Sei lá se Dilma será ou não eleita. Pouco me importa.
ESTOU ME DECLARANDO OPOSIÇÃO A ESTA CONCEPÇÃO DE PODER, QUE NADA TEM A VER COM DEMOCRACIA. E NÃO ME INTERESSA QUEM É OU QUEM SERÁ PODER!
Sugestão de casamento
Já relatei aqui que um dos assessores de Dilma costuma contar, com graça, como se isso expressasse uma Brasil de que devêssemos nos orgulhar, que, em certos rincões, ela é chamada de "a muié do Lula". Pois a propaganda que foi ao ar ontem à noite investiu na desinformação e celebrou um "casamento" entre os dois, ao lembrar a trajetória de ambos, até o encontro. A narrativa simulou a estrutura daqueles slides de casamento — uma chatice de que só os noivos e suas respectivas famílias não se dão conta… — que mostram os pombinhos ainda bebês, a primeira boneca ela, o primeiro Falcon dele, depois a escola, os amigos, o encontro, as cenas românticas "roubadas" por amigos e, finalmente, o enlace. Lula não teve o primeiro Falcon, mas a primeira greve; Dilma não teve a primeira boneca, mas o primeiro grupo armado… De todo modo, eles se casaram na igreja de João Santana. O soberano, assim, não só daria o objeto direto (o povo) à sucessora; mas ele o daria à sua "muié".
Não dá
É irrelevante especular sobre as minhas, literalmente, afinidades eletivas, ainda que eu não faça questão nenhuma de escondê-las por uma questão de honestidade intelectual. Quem se disfarça de isento para poder expressar preferências de modo oblíquo está, a meu ver, delinqüindo intelectualmente. Mas não é o caso.
A campanha de Dilma Rousseff é um escancarado ato de rebaixamento ou de regressão da democracia à fase do personalismo mais primitivo. Reitero: não se via nada assim desde a carta do suicida Getúlio Vargas — embora, agora, o cordeiro sacrificado seja o processo democrático. A quantos essas minhas restrições terão alguma importância? Isso, absolutamente, não me preocupa. Escrevo o que acho que devo, segundo valores explícitos: os da democracia, em que ninguém, nem mesmo um dos Poderes da República, é soberano. Se soberano há, então não há democracia.
Lula, evidentemente, simula as ações de um soberano sem que o seja de fato.  Não ainda ao menos. A democracia respira no Brasil, mas o ar começa a ficar viciado. A tão saudada — por muitos, não por mim — chegada de um ex-operário à Presidência como demonstração do vigor da democracia brasileira resulta, na sua saída, numa tentativa de transformar essa mesma democracia em mero ritual homologatório.  Aqueles entisastas esqueceram de indagar quais valores estavam ascendendo com Lula.
O sujeito "povo" levou Lula ao poder. E o sujeito Lula está tentando transformar esse povo num objeto de doação. Pode acontecer? Pode. Só não esperem o meu assentimento. Há muitos anos aponto o caráter autoritário do PT. Não seria agora, quando ele mais se revela, que me absteria de fazê-lo. Até porque o partido cumpre à risca as minhas predições. Nunca imaginei que ele fosse tentado a dar um golpe nas instituições. A sua lógica é outra: as instituições é que são levadas a uma espécie de autogolpe.
O que os petralhas vêm fazer aqui? Saber se digo "não?"
Não os decepcionarei:  NÃO!!!

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