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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O desafio principal não está em gerir a economia

via Augusto Nunes | VEJA.com de Augusto Nunes em 22/12/10


ARTIGO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEGUNDA-FEIRA
Marco Antonio Rocha
Nunca antes na história deste país um chefe de governo despediu-se do cargo de maneira tão apoteótica e repetitiva. Percorrendo o Brasil como num rabo de foguete, Lula parece querer despedir-se de cada um dos brasileiros. E em cada canto entrega-se com volúpia às aclamações das massas, aos vivas esganiçados dos puxa-sacos de todos os calibres, aos urros dos áulicos de plantão. Se apurasse bem os ouvidos talvez distinguisse, em meio ao trovejar ululante do povaréu, alguns gritos de "já vai tarde", emitidos pela minoria que decididamente não gosta dele, que votou sempre contra ele, ou daqueles que, mesmo admirando-o, se sentem constrangidos com essa exibição impudica de soberba e jactância desenfreada. Se num dos auditórios repletos de sabujos, principalmente do meio empresarial, alguém se levantasse e gritasse, como o rei Juan Carlos – "Por qué no te callas?"-, talvez se quebrasse o encanto e se revelasse a nudez do falso rei.
Mas isso não vai acontecer. Lula, como Zagallo, pode dizer, para todos os "do contra": Vocês vão ter que me aguentar. Se bem que o povo brasileiro, no íntimo, no seu trato, na sua decantada cordialidade, seja avesso à jactância e ao exibicionismo. Lula, que se considera "a encarnação do povo", como já declarou, deve saber disso. Mas neste fim de governo parece que a Pombagira baixou nele e, presa de delírio parlatório ininterrupto, arrisca pegar mal junto ao povão. É possível que, mais adiante, uma derrama de documentos em algum WikiLeak da moda revele que um chefe de Estado estrangeiro andou perguntando ao seu embaixador no Brasil se por acaso Lula andava tomando algum remédio… Por menor exuberância do que a dele, Christina Kirchner suscitou essa indagação.
Mas deixemo-lo em paz – como diria meu professor de português, Celestino Correia Pina, no velho Colégio Roosevelt, cultivador de exímias colocações pronominais – pois não falta muito para que seu tempo acabe.
O que temos, pela frente, é Dilma Rousseff, a presidente eleita que, na elegante definição de Roberto Pompeu de Toledo, na Veja, é ainda "uma obra em construção". O que já se escreveu sobre sua biografia não tem serventia, pois a parte dessa biografia que realmente interessa para o povo brasileiro começará em janeiro.
Também já se falou muito sobre o Brasil que ela irá receber de Lula. Sendo economista e sendo letrada, ela sabe melhor do que nós que estará recebendo uma espécie de presente de grego, pois, em resumo, tudo aquilo que contribuiu para a vitória eleitoral que teve é uma espécie de pão que o diabo amassou que lhe dará muita dor de cabeça e criará muito conflito logo no início do mandato. Assim, o câmbio valorizado, o crédito farto, o aumento real dos salários, a redução da pobreza e o consequente aumento do consumo, a elevação dos investimentos estrangeiros no Brasil, enfim, tudo o que fez a alegria do povo nos últimos meses traz forte potencial para causar tristeza nos próximos.
No entanto, esses são problemas apenas de ajuste. Há que haver um ajuste geral: na política fiscal, na política monetária, na política creditícia, na política cambial, na política salarial. Foi isso que Fernando Henrique teve de fazer quando assumiu pela primeira vez, a fim de preservar a maior conquista da economia brasileira desde os tempos de Juscelino: a estabilidade da moeda. E que Lula levou adiante, adicionando mais duas conquistas importantes: a criação de uma política sensata de renda mínima e a ampliação sustentável de um mercado de consumo de massa, as duas coisas impulsionando fortemente a atividade econômica.
O problema é que as boas obras de Lula estão gerando risco potencial para a boa obra deixada por Fernando Henrique, ou seja, o ímpeto da economia e do mercado de consumo de massa está colocando em risco a estabilidade monetária.
Uma tarefa de Dilma, em resumo, é preservar as boas coisas dos dois antecessores. Para isso basta uma boa e honesta administração. É questão de dosar austeridade fiscal e financeira com crescimento sustentável do PIB – bons economistas sabem como fazer isso, e ela os tem.
A tarefa muito mais séria, difícil e complexa não está na administração da economia, e, sim, na restauração da dignidade na e da Nação – da confiança do povo no regime, nas instituições e na autoridade.
Anos de imoralidade desacorrentada, de corrupção desalentadora, de cinismo abjeto, de ascensão do mau-caratismo em toda parte, de triunfalismo das nulidades causaram tamanha defraudação do bem público mais essencial – que é o respeito da população por suas instituições e por si própria – que urge eliminar esse brutal foco de desarranjo, espiritual e ético, da vida pública brasileira, com veemência e com eficácia.
Lula tem séria atrofia de senso ético, combinada com elevada dose de oportunismo. Rescaldo do esquerdismo primitivo, pois, "ética é coisa de burguês"! Mas isso estimulou o lumpesinato da política a perpetrar um tsunami de assaltos ao erário, junto com uma devastação dos valores nacionais como nunca se viu neste país. É o desenvolvimento canceroso dessa indignidade que cabe a Dilma, mulher, extirpar – se puder.

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