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quarta-feira, 10 de junho de 2009

PETROBRAS, TEORIA CONSPIRATÓRIA E CASSANDRA

via Reinaldo Azevedo | VEJA.com de Reinaldo Azevedo em 09/06/09

Há muito tempo, vocês sabem, aponto, de modo sistemático, a falta de apreço do PT pelo pluralismo, em especial pela liberdade de imprensa. No período, enfrentei toda sorte de crítica — desde aquela organizada pela ralé partidária que dá plantão na Internet à outra, aparentemente mais sofisticada, vinda das vozes dos oficialismo que estão na grande imprensa, como legítimos quintas-colunas. Estes pretendem emprestar certa sofisticação ao ataque, acusando o que seria uma "mentalidade conspiratória". É uma tática de desqualificação, nada além disso. Falo mais a respeito na segunda metade do artigo.

Pois bem: noticiei ontem aqui que duas entidades que reúnem jornalistas, a ABI e a Fenaj, haviam se calado sobre o tal blog da Petrobras (ABI E FENAJ: CUIDADO PARA NÃO VOMITAR, LEITOR ). A primeira tem patrocínio da estatal. A outra promove um convênio de sindicatos com a Petros. Esses fatos falam pela moralidade dessa gente. Pois bem: no fim da noite, vi Maurício Azedo, presidente da ABI, no Jornal da Globo. Disse não ver nada demais em a Petrobras divulgar a pauta dos jornalistas que a procuram em busca de informações. Vocês conhecem muito bem aquele sentimento que consiste em sentir vergonha em lugar de outra pessoa, não? Senti a vergonha que Azedo não sentiu. Deve ser muito triste chegar à idade dele e ter de dar nó no verbo para justificar o injustificável.

A Fenaj é aquela entidade que se ofereceu para constituir a primeira diretoria do malfadado Conselho Federal de Jornalismo, lembram-se? Era aquele órgão que os valentes insistiam em criar e que se constituiria num verdadeiro departamento de censura. No limite, eles chamavam para si até mesmo o direito de cassar a licença profissional de um jornalista. Vocês podem adivinhar qual seria o critério para eleger o inimigo. Sim, essa gente odeia a liberdade. A imprensa brasileira está sob o cerco do MR-8 de Franklin Martins, agora com verba bilionária. Sempre desconfiei do fato de este senhor jamais ter feito um mea-culpa pelo seqüestro de que participou. Ao contrário: parecia se orgulhar dele em seu blog. Quem se orgulha de seqüestrar pessoas, pouco importa a causa, se define.

Ouvido pela Folha, Franklin disse que "os jornais não têm direito de pedir sigilo das perguntas" e que isso que faz a Petrobras "é uma tendência". Este senhor está empenhado naquela que é sua obsessão desde que foi chutado da TV Globo: vingar-se da "imprensa burguesa" e tentar esvaziar a sua pauta. À sua maneira, está sendo bem-sucedido. Consta que, no grupo dos seqüestradores, ele era da linha-dura, que realmente se levava a sério e levava a sério as ameaças. Um homem obstinado, enfim.

Qual é a intenção? No limite, essa gente pretende ameaçar a imprensa com o seu fim, a sua obsolescência. Se as empresas e os governos decidirem que tudo o que lhes é perguntado vai para o ar, perguntam os tolos — e a corja que aplaude a iniciativa —, então pra que jornais, revistas e sites noticiosos? Trata-se, claro, de uma bobagem. Indagações de jornalistas são peças de um quebra-cabeças. Compõem apenas parte de uma apuração. É UMA ASNICE DIGNA DA ESTUPIDEZ QUE ESSA GENTE MOBILIZA IMAGINAR QUE, ASSIM PROCEDENDO, O JORNALISMO SE ESVAZIA. O fato de isso ser uma tolice não muda a intenção malévola da iniciativa, a sua estúpida falta de ética, o seu cretinismo autoritário.

Qual a pretensão? Eliminar a mediação. Qual mediação? Justamente aquela que cabe à imprensa, a saber: juntar peças do que parece desconexo no jogo político e entregar ao leitor uma inteireza. E é justamente disso que essa gente tem horror. Porque isso faz supor a existência de uma inteligência que está fora do guarda-chuva do governo e das várias formas de controle do estado. Furando a pauta dos jornalistas, a turma de Franklin Martins — cujo poder, não se esqueçam, se estende às estatais — e José Sérgio Gabrielli acredita que destrói também a apuração sobre eventuais irregularidades e impropriedades na Petrobras. Lula cuida pessoalmente da tentativa de sabotar a CPI. A dupla se encarrega de liquidar outra frente de problemas: a imprensa. E o partido, sindicatos e parlamentares petistas organizam as manifestações de rua.

Teorias conspiratórias e Cassandra
Aponto aqui, como disse, permanentemente, o viés autoritário do PT. Parte dos artigos está em livro — muito bem-sucedido, é bom que saibam. Daria para fazer mais uns dez — a propósito: trabalho em outro, diferente, logo vocês saberão. E uma das formas de me desqualificar é apontar a minha "mentalidade conspiratória". Eis aí. Imaginem o que o colunismo de esquerda não estaria dizendo se FHC estivesse no governo. A propósito: ainda há quem só consiga criticar a Petrobras atacando primeiro o PSDB e o DEM… Lixo.

Mentalidade conspiratória? Pois é… Isso me remete aos clichês de filmes-catástrofe. Vocês sabem: o enredo é sempre o mesmo. Todo mundo vive feliz, e algumas coisas estranhas começam a acontecer. Há sempre uma personagem que funciona como um radar, que desconfia de tudo, que tenta alertar os inocentes. Ninguém lhe dá crédito, é claro. O mal pode variar: incêndio, capeta, formiga, piranha, tubarão, não importa. Quem percebe o problema sempre é malsucedido na catequese, não é? Até que a coisa fica feia.

Isso é muito antigo, gente! Antiqüíssimo! Ainda hoje, usa-se de modo errado, no Brasil, a expressão "Cassandra". Quando se quer dizer que o sujeito vive antevendo desastres, diz-se em tom de desqualificação: "É uma Cassandra!". A filha do troiano Príamo recebera de Apolo o dom da profecia. Prometeu ao deus, em troca, que se deitaria com ele, mas não cumpriu. Ele se vingou: manteve o seu dom, mas fez com que ninguém acreditasse nela. Quando os gregos largaram aquele cavalo às portas de Tróia, a belezoca implorou que não o levassem para dentro da cidade. Não foi ouvida. O resto vocês já sabem…

Alertar para o mal e enfrentar a incredulidade dos crédulos — atentem para a graça desse oximoro — é coisa inscrita em nossa cultura, em nossas raízes morais. A razão é simples: se realmente nos damos conta do perigo e do malefício, somos obrigados a agir. E, muitas vezes, as instituições preferem a acomodação, o que é sempre um encontro marcado com a morte.

A imprensa brasileira está sob ataque e sob um cerco que busca desmoralizá-la. O centro dessa ação não está na Petrobras, mas no Palácio do Planalto. A rataiada não se cansa de escrever pra cá: "E aí? E aí? O que você vai dizer agora." Ora, direi que sempre estive certo sobre eles. A minha antevisão, não havendo reação, é ainda mais pessimista do que isso. Nos filmes-catástrofes, acabam vencendo o mal porque, finalmente, os lesos se dão conta do que está em curso. No Brasil, por enquanto, os crédulos estão na fase da incredulidade: "Ah, não exagere! Isso é só teoria conspiratória".

E levam o cavalo pra dentro. As redações estão cheias deles.

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