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segunda-feira, 4 de abril de 2011

A PF, tão elogiada durante o lulalato, diz que houve crime e uso de dinheiro público no mensalão. E Lula vai ter que explicar porque pediu desculpas e se sentiu traído. Reveja o vídeo

Por Ricardo Setti

Ué, mas a Polícia Federal não era o supra-sumo da perfeição durante o lulalato?


Pois agora o pessoal do PT tem que engolir: é a Polícia Federal quem diz que o mensalão existiu, sim, que envolveu dinheiro público e que o santo-dos-santos do lulalato, o próprio ex-presidente, foi beneficiado pelo esquema.


Como é que fica agora o trololó dos petistas de que o mensalão não existiu, de que se tratou de uma invenção da oposição, de que foi uma fantasmagórica “trama golpista”?


Como é que fica o próprio Lula?


Lembram-se de que, no final do ano passado, numa espécie de festa de despedida que realizada no Rio, ele avisou que subirá ao palanque dos candidatos dos partidos aliados a prefeito em 2012, disse que iria continuar na vida política depois de deixar o poder, e voltou insistir na insânia de que o mensalão não foi um escândalo de roubalheira, caixa 2 e outros crimes para comprar votos em apoio a seu governo, mas um movimento de tons “golpistas”.


“Vocês viram o que aconteceu comigo em 2005″, bradou. “Mais uma vez (sic) se tentou truncar o mandato de um presidente democraticamente eleito”.


Dias antes, Lula prometeu que, fora do poder, iria ajudar a “desmontar a farsa do mensalão”. Ou seja, chamou de “farsa” o escândalo da compra de votos em troca de apoio a seu governo que provocou uma brutal crise política em 2005, levou à demissão e posterior cassação do mandato de deputado de seu chefe da Casa Civil, José Dirceu, e resultou num processo criminal ora em curso no Supremo Tribunal Federal, no qual o procurador-geral da República acusa Dirceu de comandar uma “quadrilha”.


Chamou de “farsa” o que a Polícia Federal, DURANTE SEU MANDATO, investigou e concluiu que houve CRIME, uso de dinheiro público e uma série enorme de bandalheiras.


O duro vai ser apagar da história o pedido de desculpas


Vai ser interessante, agora, ver como o Deus do lulalato conseguirá realizar esse último propósito, diante do que revelou a Polícia Federal — e que VEJA já havia, em muitos casos, adiantado — sobre a montanha de dinheiro sem explicação comprovadamente distribuído a figurões petistas, das operações bancárias espertíssimas, dos empréstimos fajutos — e por aí vai.


Vai ser mais interessante ainda ver os esforços do ex-presidente para borrar da história recente o famoso discurso transmitido pela TV a 12 de agosto de 2005, em que, constrangido, apalermado, abatido, sem saber para onde dirigir o olhar, levemente trêmulo, ele declarou perante a o país — em pleno fragor do escândalo — que fora “traído” e mencionou “desculpas”.


Nesse discurso, feito na Granja do Torto, em Brasília, antes de uma reunião ministerial, Lula não explicou quem o traiu — nunca explicou, aliás, e agora está desmemoriado, esquecido completamente do assunto --, mas a alegação da traição ficou, insiste em ficar, e continua latejando. Nem esclareceu exatamente o porquê do pedido de desculpas aos brasileiros.


Se Lula fez o discurso da traição durante o escândalo, é claro que se destinava a, de alguma forma, apresentar uma explicação ao país sobre a espantosa sucessão de bandalheiras que a cada dia vinham à tona — uma explicação frouxa, gaguejante, canhestra, reticente e vazia, mas uma explicação.


Se Lula proferiu o discurso e denunciou a traição, ocorreu naquele momento um explícito reconhecimento de que o mensalão não apenas existiu, mas teria propiciado esse seríssimo agravo ao presidente da República.


Como, depois disso, sem mais nem porquê, de repente não existiram a montanha de dinheiro, a CPI no Congresso, os depoimentos no Supremo e, sobretudo, o discurso? Tudo teria sido uma “farsa” e uma tentativa de “truncar o mandato de um presidente democraticamente eleito”? E como fica a tão elogiada Polícia Federal e sua atuação durante o lulalato?


Sobre o inquérito da PF, leia aqui.


E, amigos, vamos rever trechos do discurso, que diz mais, muito mais do que meu texto:



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