Página

domingo, 4 de julho de 2010

Eleição sem maquiagem



DO JORNAL ZERO HORA, de Porto Alegre (RS)
 - 04 de julho de 2010 | N° 16386

ARTIGOS

Eleição sem maquiagem, por Fernando Henrique Cardoso*

O mundo continua se contorcendo sem encontrar caminhos seguros para superar as consequências da crise desencadeada no sistema financeiro. Até a ideia (que eu defendi nos anos 1990 e que parecia uma heresia) de impor taxas à movimentação financeira reapareceu na voz dos mais ortodoxos defensores do rigor dos bancos centrais e da intocabilidade das leis de mercado. No afã de estancar a sangria produzida pelas exacerbações irracionais dos mercados, outros tantos ortodoxos passaram a usar e até a abusar de incentivos fiscais e benesses de todo tipo para salvar os bancos e o consumo. Paul Krugman, mais recentemente, lamentou a resistência europeia à frouxidão fiscal. Ele pensa que o corte aos estímulos pode levar a economia mundial a algo semelhante ao que ocorreu em 1929. Quando a crise parecia acalmada, em 1933, suspenderam-se estímulos e medidas facilitadoras do crédito, devolvendo a recessão ao mundo. Será isso mesmo? É cedo para saber. Mas, barbas de molho, as notícias que vêm do Exterior, e não só da Europa, mas também da ziguezagueante economia americana e da letárgica economia japonesa, afora as dúvidas sobre a economia chinesa, não são sinais de uma retomada alentadora.

Enquanto isso, vive-se no Brasil oficial como se tivéssemos nos transformado em uma Noruega tropical, na feliz ironia de um jornal em editorial recente. E em tão curto intervalo, que estamos todos atônitos com tanto dinheiro e tantas realizações. Basta ler o último artigo presidencial no Financial Times. A pobreza existia na época da “estagnação”. Agora assistimos ao espetáculo do crescimento, sem travas, dispensando reformas e desautorizando preocupações. Se no governo Geisel se dizia que éramos uma ilha de prosperidade num mundo em crise, hoje a retórica oficial nos dá a impressão de que somos um mundo de prosperidade e o mundo, uma distante ilha em crise. Baixo investimento em infraestrutura? Ora, o PAC resolve. Receio com o aumento do endividamento público e o crescente déficit previdenciário? Ora, preocupação com isso é lá na Europa. Aqui, não. Afinal, Deus é brasileiro.

Só que a realidade existe. A prosperidade de uns depende da de outros no mundo globalizado. Por mais que estejamos relativamente bem em comparação com os países de economia mais madura, se estes estagnarem ou crescerem a taxas baixas, haverá problemas. A queda nos preços das matérias-primas prejudicará as nossas exportações, grande parte delas composta de commodities. A ausência de crescimento complicará a solução dos desequilíbrios monetários e fiscais dos países ricos e isso significará menos recursos disponíveis para o Brasil no mercado financeiro global. Não devemos ser pessimistas, mas não podemos nos deixar embalar em devaneios quase infantis, que nos distraem de discutir os verdadeiros desafios do país.

Infelizmente, estamos às voltas com distrações. Um cântico de louvor às nossas grandezas, de uma falta de realismo assustador. Embarcamos na antiga tese do Brasil-potência e, sem olhar em volta, propomo-nos a dar saltos sem saber com que recursos: trem-bala de custos desconhecidos, pré-sal sem atenção ao impacto do desastre do Golfo do México sobre os custos futuros da extração do petróleo, capitalização da Petrobras de proporções gigantescas, uma Petro-Sal de propósitos incertos e tamanho imprevisível. Tudo grandioso. Fala-se mais do que se faz. E o que se faz é graças a transferências maciças do bolso dos contribuintes para o caixa das grandes empresas amigas do Estado, através de empréstimos subsidiados do BNDES, que de quebra engordam a dívida bruta do Tesouro.

A encenação para a eleição de outubro já está pronta. Como numa fábula, a candidata do governo, bem penteada e rosada, quase uma princesinha nórdica, dirá tudo o que se espera que diga, especialmente o que o “mercado” e os parceiros internacionais querem ouvir. Mas a própria candidata já alertou: não é um poste. E não é mesmo, espero. Tem uma história, que não bate com o que se quer que ela diga. Cumprirá o que disse?

No México do PRI, cujo domínio durou décadas, o presidente apontava sozinho o candidato a sucedê-lo, em um processo vedado ao olhar e às influências da opinião pública. No entanto, quando a escolha era revelada ao público – “el destape del tapado” –, o escolhido se via obrigado a dizer o que pensava. Aqui, o “dedazo” de Lula apontou a candidata. Só que ela não pode dizer o que pensa para não pôr em risco a eleição. Estamos diante de um personagem a ser moldado pelos marqueteiros. Antigamente, no linguajar que já foi da candidata, se chamava isso de “alienação”.

Esconde-se, assim, o que realmente está em jogo. Queremos aperfeiçoar nossa democracia ou aceitaremos como normal os grandes delitos de aloprados e as pequenas infrações sistemáticas, como as de um presidente que dá de ombros diante de seis multas a ele aplicadas por desrespeito à legislação eleitoral? Queremos um Estado partidariamente neutro ou capturado por interesses partidários? Que dialogue com a sociedade ou se feche para tomar decisões baseadas em pretensa superioridade estratégica para escolher o que é melhor para o país? Que confunda a nação com o Estado e o Estado com empresas e corporações estatais, em aliança com poucos grandes grupos privados, ou saiba distinguir uma coisa da outra em nome do interesse público? Que aposte no desenvolvimento das capacidades de cada indivíduo, para a cidadania e para o trabalho, ou veja o povo como massa e a si próprio como benfeitor? Que enxergue no meio ambiente uma dimensão essencial ou um obstáculo ao desenvolvimento?

Está na hora de cada candidato, com a alma aberta e a cara lavada, dizer ao país o que pensa.

*EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

sábado, 3 de julho de 2010

O gênio de Pelé

A jornada da esquerda petista em direção à irrelevância, por Ethan Edwards

via Augusto Nunes | VEJA.com de Augusto Nunes em 03/07/10

"A cada vez que Lula sentia necessidade de enforcar alguém, parte da esquerda corria a lhe oferecer um pedaço de corda, outra lhe trazia um pescoço", constata Ethan Edwards em mais um texto admirável, que amplia e ilumina o post sobre a subordinação do PT à vontade de Lula e à cupidez do PMDB. É o tipo de leitura que não se adia:
Em 1980, a esquerda entregou a Lula a direção do processo de construção do PT. Compreendia que, de outro modo (isto é, com base nos princípios do marxismo ─ na hipótese de que alguém os conhecesse), não conseguiria construir o partido com que sonhava. Ou entregava a chefia do partido a Lula e seus amigos despolitizados (sabendo que daquilo adviria, na melhor hipótese, um partido populista) ou ficava à margem desse processo onde já se encontravam embarcados os militantes da Teologia da Libertação e o "novo sindicalismo".
Optou, depois de pensar um pouco (na verdade, bem pouco), por associar-se a estes e ajudar a construir o partido que se dizia "dos trabalhadores", reservando-se a ilusão de que, com o tempo, acabaria por arrebatar do operário personalista e seus cortesãos o comando do processo. Essa capitulação tinha um fundo realista. A esquerda já suspeitava (embora nunca tenha examinado de frente essa suspeita) que, em vez de complicados problemas teóricos, o que tornava impossível, no Brasil, a construção de um partido "verdadeiramente revolucionário" era algo bem mais difícil de "equacionar": o povo brasileiro.
Cristão, conservador, respeitador das hierarquias, profundamente ligado à família, avesso a regras impessoais, o máximo de "comunismo" a que o brasileiro comum alguma vez se permitiu foi o de Dias Gomes e de João Saldanha, que estavam para Lênin e Trotsky assim como a umbanda está para a reforma protestante. Quem insistisse em construir no Brasil um partido marxista estaria condenado a viver num gueto. Lula, ao contrário da esquerda que o cercava, falava diretamente ao coração do "brasileiro médio". O mais inteligente era entregar-lhe a chefia do novo partido.
Trinta anos depois, a situação da esquerda petista não melhorou. Na verdade, deteriorou-se por completo. Se lhe serve de consolo, entretanto, deve-se registrar que nessa jornada em direção à irrelevância a esquerda jamais pediu ajuda a ninguém. Caminhou sempre com as próprias pernas. A cada vez que Lula sentia necessidade de enforcar alguém, parte da esquerda corria a lhe oferecer um pedaço de corda, outra lhe trazia um pescoço. O executado quase sempre era um dos seus – mas isso não tinha importância.
O que importava, então? Boa pergunta. Aceitemos, por generosidade, que tudo não passou de um enorme erro de cálculo. Mas a pergunta que realmente interessa, no entanto, é outra, e não se refere ao passado: por que, trinta anos depois daquela decisão infeliz, a esquerda continua, como um velho serviçal desfibrado, a apoiar todos os atos, mesmo os mais desprezíveis, de um governo banalmente populista, que enriqueceu os milionários e se aliou ao que havia de pior na política brasileira, e que evidentemente jamais abrirá caminho para a "revolução", qualquer que seja a revolução que a esquerda diz almejar?
A pessoa ideal para responder a essa pergunta já faleceu: a Dra. Nise da Silveira. Ex-trotskista, dedicou toda sua vida madura a tratar de esquizofrênicos. Ela provavelmente compreenderia, melhor do que ninguém, o que se passa na alma de um petista que continua a se imaginar "revolucionário". Ela lhe daria tinta e pincel e o estimularia: "Pinte, meu filho. Pinte mandalas. Você vai se sentir muito melhor".

ENTREVISTA EXCLUSIVA - INDIO DA COSTA DIZ QUE VOLTA A PINTAR A CARA: AGORA P...

via Reinaldo Azevedo | VEJA.com de Reinaldo Azevedo em 01/07/10

indio-da-costa-dois
O deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ) poderia ficar tranqüilo, na "zona do conforto", como diz uma propaganda sobre os craques da Seleção, e esperar a reeleição para a Câmara. Em política, quando se tem 39 anos, tempo não é problema. Mas decidiu suar a camisa para valer e aceitou o desafio de ser o vice na chapa encabeçada pelo presidenciável tucano, José Serra. Surgiu como um nome de consenso de tucanos e democratas depois da crise danada envolvendo os dois partidos. Sem trocadilho, Indio afirma: "Volto a pintar a cara para eleger José Serra presidente do Brasil".
Ele faz alusão ao movimento dos cara-pintadas, de 1992, que, se não derrubou exatamente o então presidente Fernando Collor — hoje aliado de Lula —, serviu para informar ao Congresso, à Justiça e ao próprio chefe do Executivo qual era o sentimento da sociedade. Indio da Costa, então com 22 anos, também foi às ruas. E acha que alguns daqueles anseios acabaram se perdendo ou foram pervertidos. O que faz Indio pintar a cara 18 anos depois? "O inchaço da máquina pública, o apadrinhamento dos incompetentes, o aparelhamento do Estado, o uso partidário da máquina pública, a baixa qualidade dos serviços do Estado".
Advogado, membro de uma família tradicional do Rio, sem histórias tristes para contar sobre a infância sofrida, com uma carreira na vida privada, se quisesse, que poderia se dar sem sobressaltos… Por que alguém com esse perfil vai para a política? Ele responde: "Paixão por algumas causas e apreço pelas pessoas".
O candidato a vice de Serra conta que teve um aneurisma cerebral em 2003. Achou que fosse morrer. Sobreviveu. Se tirou lições existenciais, não diz, mas ele tirou uma lição política: "Quando eu me recuperei, tive renovada a certeza de que é preciso lutar para que todas as pessoas tenham as condições de tratamento que eu tive." Diz ainda: "Não é possível passar diante de um hospital público, ver aquela fila imensa, saber que as pessoas estão sendo maltratadas e achar que aquilo é normal."
Perguntei se juventude ajuda ou atrapalha. Sorrindo, ele afirma: "Se for um defeito, tem cura!" Ô… Taí um mal que poderia ser incurável, hehe. Seguem os principais trechos da entrevista, concedida ontem à noite a este blog por telefone.
*
BLOG - Por que o senhor é um bom candidato a vice-presidente na chapa encabeçada pelo tucano José Serra?
INDIO DA COSTA -
Bem, o Democratas e o próprio José Serra talvez possam dizer melhor do que eu. Mas é certo que contou nessa escolha a minha atuação no Projeto Ficha Limpa, do qual fui relator. É bom lembrar, as reportagens estão por aí, que, inicialmente, os líderes do governo, do PT, PMDB, PP e PR na Câmara se juntaram contra a proposta. Foi preciso muita determinação nossa, do PSDB, do DEM e do PPS, para levar adiante o que era um anseio muito justo da população. Ela não tem como saber, sozinha, a situação criminal de muitos candidatos. É preciso que o Estado crie barreiras e forneça os instrumentos para impedir que a política seja contaminada por práticas nefastas. Uma pessoa condenada não pode usar a imunidade oferecida pelo mandato para se proteger. Essa sempre foi a minha crença, desde que estou na política, e era e é esse o sentido primário do projeto Ficha Limpa.
BLOG - O senhor tem 39 anos. Vai fazer 40 no mês da eleição (dia 20 de outubro). Nesse caso, juventude ajuda ou atrapalha?
INDIO DA COSTA -
Se a juventude é um defeito, é daqueles defeitos que têm cura (risos). E também não sou tão jovem assim. Estou há 18 anos na política. Mas reconheço que há uma marca de renovação. E me junto a José Serra, que me parece o retrato da experiência, do conhecimento, da competência. Não quero fazer disso que chamam juventude uma vantagem absoluta, mas represento um modo de fazer política que está bastante conectado com anseios coletivos, que nem sempre encontram canais de expressão. Entre as assinaturas de Internet e de papel, o Projeto Ficha Limpa teve a adesão de 4,2 milhões de pessoas. E elas conseguiram se fazer ouvir, representando, certamente, muito mais gente do que isso.
BLOG - Dezoito anos na política? Em 1992, houve o chamado movimento dos cara-pintadas, que pediram a deposição do então presidente Fernando Collor. O senhor foi à rua pedir o impeachment?
INDIO DA COSTA -
Fui, sim. Eu fui um cara-pintada. Não era ligado a nenhum movimento propriamente, mas fui às ruas como muita gente.
BLOG - Acredita que aqueles anseios foram satisfeitos?
INDIO DA COSTA -
Não fui às ruas para eleger ninguém. Foi um movimento exigindo ética na política. E hoje pinto a cara novamente, agora para eleger José Serra presidente da República.
BLOG - Qual é a causa de agora? Continua a ser a questão ética?
INDIO DA COSTA -
Também é, ou não precisaríamos de um projeto como o Ficha Limpa. Mas a pauta é mais ampla. É preciso pintar a cara contra o inchaço da máquina pública, contra o apadrinhamento dos incompetentes, contra o aparelhamento do Estado, contra o uso partidário da máquina pública, contra a baixa qualidade dos serviços. Mas é preciso pintar a cara também a favor: a favor de um modelo em que o estado seja realmente indutor do desenvolvimento, não um patrão da sociedade, que quer concorrer com ela. Há muita coisa a fazer no Brasil.
BLOG - O sr. tem uma origem familiar que lhe permitira cuidar de sua vida privada sem se meter no território às vezes hostil da política. Por que essa escolha?
INDIO DA COSTA -
Alguns dirão que é piegas, mas é verdade: é paixão mesmo. Paixão por algumas causas e apreço pelas pessoas. Não é possível passar diante de um hospital público, ver aquela fila imensa, saber que as pessoas estão sendo maltratadas e achar que aquilo é normal. Não é.  Não dá para constatar que a gente tem uma educação de baixa performance, uma das piores do mundo, e considerar que as coisas são assim mesmo, que a gente, como povo, é assim. É preciso melhorar essas políticas públicas. Não é preciso ver a tragédia social decorrente de catástrofes naturais e achar que nada pode ser feito. É a política que tem de mudar essas realidades.
BLOG - O sr. fez uma cirurgia delicada em 2003 para extrair um aneurisma do cérebro. Ficou com medo de morrer?
INDIO DA COSTA -
Eu tinha 32 anos. Pensei na morte. Mas, felizmente, tudo deu certo. Não quero falar de lições existenciais que aprendi, porque isso é muito pessoal, mas não deixo de agradecer a Deus, à minha família e aos doutores Paulo Niemeyer e Sérgio Novis, que cuidaram de mim. Quando eu me recuperei, tive renovada a certeza de que é preciso lutar para que todas as pessoas tenham as condições de tratamento que eu tive. E a questão não se limita à saúde. Já colocamos todas as crianças na escola? Praticamente. Mas como anda a qualidade? É preciso cuidar da capacitação técnica dos brasileiros, e desde a primeira infância. E as creches? Com apoio do Congresso, o atual governo transformou o Fundef no Fundeb, mas faltam creches; os recursos não chegam, param na burocracia. Temos desafios imensos. E é, sim, a política que cuida dessas coisas. É por isso que precisa ser exercida por pessoas de bem e com a consciência limpa. A oportunidade de ser vice do Serra - acredito na vitória - dá a chance de a gente acelerar as transformações, de fazer mais. Aprendi muito como vereador, como deputado federal, mas sabemos o peso que o Executivo tem no Brasil e como ele pode ser efetivo para mudar a realidade quando a proposta é boa. Lembro, na prática, quando fui administrador de Copacabana, em 1995, e secretário de Administração da Prefeitura do Rio, entre 2001 e 2006, da força que tem o Executivo para transformar a vida das pessoas.
BLOG - O que há de melhor e o que há de pior no governo Lula?
INDIO DA COSTA -
O melhor é que eles não mexeram nos marcos essenciais da estabilidade econômica. E o pior está num processo de mediocrização, de desprezo pelo mérito. O pior está em recorrer a métodos detestáveis para manter o poder, de que o mensalão foi um exemplo escandaloso. Não se distinguem as esferas do estado, do governo propriamente, do aparato sindical e do partido. Isso não constitui um atentado meramente conceitual à democracia; é uma agressão ao padrão democrático que se dá na prática. Vimos o exemplo do Programa Nacional de Direitos Humanos. Recorreu-se a uma boa causa para tentar emplacar teses autoritárias, que, entre outras barbaridades, atentam claramente contra a livre iniciativa e a liberdade de imprensa.
BLOG - O senhor é conhecido por ser um deputado ligado à causa do meio ambiente. Essa causa se choca, em algum momento, com a agricultura e a pecuária?
INDIO DA COSTA -
Defendo a vida. Com a tecnologia existente, podemos produzir mais e melhor. O setor rural brasileiro é fundamental para a vida das pessoas que precisam se alimentar, ter emprego e renda. O produtor rural não é inimigo; o desmatador sim. É perfeitamente possível chegar a um padrão de racionalidade ambiental que proteja o meio ambiente e garanta o vigor do Brasil na agricultura e na pecuária. Defendo que as empresas verdes sejam incentivadas de todas as formas e que se busquem novas formas de geração de energia limpa, o transporte sobre trilhos e uma produção rural que alie a produtividade com o meio ambiente. É possível.
BLOG - O sr. está animado? O Serra vai acordar o senhor de madrugada…
INDIO DA COSTA -
Pode acordar (risos). Eu estou muito animado, sim. Perto de fazer 40 anos, trabalhar com uma das pessoas que mais entendem de administração e políticas públicas no Brasil é um privilégio pessoal, sem dúvida, me orgulha bastante. Mas me dá, sobretudo, ânimo para realmente demonstrar que é possível fazer muito mais em favor das pessoas, oferecendo instrumentos que as tirem da miséria de forma efetiva, não demagógica. E vamos conseguir!
*
Acompanhe o Twitter

POBREZA SEM MISTÉRIO

via Reinaldo Azevedo | VEJA.com de Reinaldo Azevedo em 27/06/10

Leia editorial do Estadão:
A economia brasileira criou 8,7 milhões de empregos formais entre 2003 e 2008, os programas de transferência de renda se ampliaram, milhões de famílias saíram da pobreza, a classe média cresceu e a indústria de bens de consumo prosperou. Mas 35,5% das famílias ainda se queixaram em 2008-2009 de insuficiência de comida, ocasional ou frequente, segundo a nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF).Essa pesquisa, divulgada na quarta-feira pelo IBGE, dá uma boa ideia de como têm melhorado as condições de vida da maioria dos brasileiros. Mas também mostra a permanência de amplas desigualdades e de uma significativa parcela da população atolada no atraso e na pobreza.
Como pode faltar comida para mais de um terço das famílias, num país com uma agropecuária eficiente e competitiva e um custo de alimentação dos mais baixos do mundo? Esse paradoxo aparente é um dos aspectos mais notáveis da pesquisa. Nos últimos 30 anos o peso da alimentação nos orçamentos familiares diminuiu seguidamente. Na média, passou de 33,9% em 1974-75 para 20,8% em 2002-2003 e 19,8% em 2008-2009.
Essa mudança refletiu tanto a elevação dos ganhos das famílias quanto a queda do preço relativo dos alimentos, consequência normal da produtividade crescente da agropecuária e da indústria processadora de comida. O aumento de eficiência resultou da incorporação de tecnologias, criadas em boa parte pelos institutos nacionais de pesquisa, e das mudanças da política agrícola, com mais estímulos à competitividade e abandono dos controles de preços, tão inúteis quanto contraproducentes.
Ao chegar ao governo, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mal assessorado, ainda repetia os chavões sobre a necessidade de aumentar a produção de alimentos. Mas não demorou muito a abandonar essa tolice. Se havia famílias com fome, não era por escassez de comida, mas de renda.
O problema não era produzir, mas ajudar as pessoas em pior situação a comprar o necessário para sobreviver com decência. Mesmo sua política de reforma agrária, um fracasso previsto desde o começo e confirmado amplamente pelos fatos, foi insuficiente para impedir o crescimento da agropecuária de verdade, apesar da permanente insegurança imposta aos produtores. A competência e a produtividade dessa agropecuária são reconhecidas internacionalmente pelos competidores do Brasil, embora menosprezadas por uma parte do governo federal.
Mas políticas de transferência de renda têm alcance limitado. Podem reduzir a miséria e permitir a melhora dos padrões de consumo de muitas famílias, mas não bastam, isoladamente, para criar capacidade de trabalho nem para ampliar as oportunidades de ocupação.
A média nacional das famílias com insuficiência ocasional ou frequente de comida é de 35,5%. No Nordeste, essa parcela equivale a 49,8%. No Norte, a 51,5%. As porcentagens são bem menores nas outras grandes áreas: no Sudeste, 29,4%; no Sul, 22,9%; e no Centro-Oeste, 32%.
De modo geral, essa distribuição corresponde à insuficiência de renda apontada pelas famílias em cada região e, naturalmente, há uma relação entre esses problemas e os níveis educacionais. A POF mostra tudo isso claramente.
Noutros tempos, boa parte da população menos educada se integrava na vida urbana por meio de empregos na construção. Investimentos em obras ainda podem produzir algum efeito desse tipo, mas em escala certamente menor. Também essa atividade requer, e cada vez mais, pessoal qualificado para funções tecnicamente mais complexas que as de 30 ou 40 anos atrás.
Há, no Brasil, um desajuste cada vez mais claro entre a qualidade do emprego oferecido e a da mão de obra disponível. Esse problema não se resolverá com a multiplicação de cursos universitários de utilidade muito duvidosa. É preciso cuidar muito mais seriamente da preparação nos níveis básicos e intermediários.
A presença de um quinto de 20% de analfabetos funcionais na população com idade igual ou superior a 15 anos explica boa parte dos impasses econômicos e sociais do País e dos aparentes paradoxos da POF 2008-2009.
*
Siga o Twitter