Página

sábado, 27 de março de 2010

IDEOLOGIA NA CARTILHA

Educação 

Edição 2158 / 31 de março de 2010


Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro, 
as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos
rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...


Marcelo Bortoloti
Fotos 
À caça de bons mestres
O colégio paulistano São Domingos e o estadual Pedro Álvares Cabral (no detalhe), no Rio: um desafio em comum

Os 8 milhões de estudantes brasileiros matriculados no ensino médio passaram a receber neste ano aulas de sociologia e filosofia - disciplinas que, por lei, se tornaram obrigatórias em escolas públicas e particulares. Com base nas diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação, cada estado fez o seu currículo, no qual a maioria dos colégios privados também se espelha em algum grau. A leitura atenta desse material traz à luz um festival de conceitos simplificados e de velhos chavões de esquerda que, os especialistas concordam, estão longe de se prestar ao essencial numa sala de aula: expandir o horizonte dos alunos. Não faltam exemplos de obscurantismo. Para se ter uma ideia, no Acre uma das metas do currículo de sociologia é ensinar os estudantes a produzir regimentos internos para sindicatos de trabalhadores - verdadeiro absurdo. Um dos explícitos objetivos das aulas em Goiás, por sua vez, é incrustar no aluno a ideia de que "a constante diminuição de cargos em empresas do mundo capitalista é um fator estrutural do sistema econômico" (visão pedestre que desconsidera o fato de que esse mesmo regime resultou em mais e melhores empregos no curso da história). Sem dar às questões a complexidade que elas merecem, as aulas abrangem de tudo: no Espírito Santo, por exemplo, a filosofia abarca da culinária capixaba aos ritmos indígenas. Conclui o sociólogo Simon Schwartzman: "Tratadas com superficialidade e viés ideológico, essas disciplinas só tendem a estreitar, no lugar de ampliar, a visão de mundo".
O viés presente nas aulas de sociologia e filosofia tem suas raízes fincadas nas faculdades de ciências sociais - de onde saíram, ou a que ainda pertencem, os professores responsáveis pela confecção dos atuais currículos. Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo - e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). Diz a doutora em ciências sociais Eunice Durham, da Universidade de São Paulo: "Boa parte dessas faculdades propaga apenas panfletos pseudomarxistas repletos de clichês e generalizações, sem se dar sequer ao trabalho de consultar o original". Isso se reflete agora, e de forma acentuada, nos currículos escolares de sociologia e filosofia, criticados até mesmo por quem participou da feitura deles. À frente da equipe que compôs os do Rio de Janeiro, a educadora Teresa Pontual, subsecretária estadual de Educação, chega a reconhecer: "Se criássemos diretrizes distantes demais da realidade dos professores, eles simplesmente não as aplicariam na sala de aula - fomos apenas realistas".
Sob a influência francesa, a sociologia e a filosofia começaram a ganhar espaço no ensino médio brasileiro no fim do século XIX, até se tornarem obrigatórias, ainda que com pequenas interrupções, entre 1925 e 1971. Seu retorno definitivo ao currículo, sacramentado por uma lei aprovada no Congresso dois anos atrás para entrar em vigor justamente agora, era um pleito antigo dos sindicatos dos profissionais dessas áreas. Em 2001, projeto de lei com o mesmo propósito havia passado pelo Congresso, só que acabou vetado pelo então presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso. À época, um parecer do MEC afirmava que os gastos para os estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender à nova demanda. Desta vez, o próprio ministro Fernando Haddad, filósofo de formação, empenhou-se para aprovar o texto. Daqui para a frente, de acordo com um levantamento do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, serão recrutados mais 20 000 professores no país inteiro. Trata-se de algo temerário, segundo alerta o sociólogo Bolívar Lamounier: "Não há tanta gente qualificada para desempenhar tal função no Brasil". A experiência recente das próprias escolas já sinaliza isso. "Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica", conta Sílvio Barini, diretor do São Domingos, colégio particular de São Paulo.
Ao obrigar as escolas a ensinar sociologia e filosofia a todos os alunos, o Brasil se junta à maioria dos países da América Latina - e se distancia dos mais avançados em sala de aula, que oferecem essas disciplinas apenas como eletivas. Deixá-las de fora da grade fixa é uma decisão que se baseia no que a experiência já provou. Resume o economista Claudio de Moura Castro, articulista de VEJA e especialista em educação: "Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil". Em outros países da América Latina, esse tipo de iniciativa também costuma resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda, preponderante nas escolas. Não será desse jeito que o Brasil dará o necessário passo rumo à excelência.

O AI-13 dos militontos

Artigo: Reinaldo Azevedo em Veja 

 Edição 2158 / 31 de março de 2010


A exemplo dos contestadores do filme A Vida de Brian (alugue hoje mesmo), do grupo inglês Monty Python, os inimigos atuais da civilização perguntam em tom desafiador e eu lhes respondo com os fatos:

– O que foi que esse modelo nos deu?
– A democracia!
– É verdade! Ele nos deu a democracia. Fora a democracia, o que foi que esse modelo nos deu?
– A segurança jurídica!
– É, ele nos deu isso também. Fora a democracia e a segurança jurídica, o que nos deu esse modelo?
– A igualdade perante a lei!
– Tá bom, vá lá. Fora a democracia, a segurança jurídica e a igualdade perante a lei, o que é que esse maldito modelo nos deu?
– As vacinas?
– Além da democracia, da segurança jurídica, da igualdade perante a lei, das vacinas, respondam: o que nos deu esse modelo?
– Os antibióticos!
– Perguntarei pela última vez: sem contar a democracia, a segurança jurídica, a igualdade perante a lei, as vacinas e os antibióticos, que diabos nos deu esse modelo?
– O vaso sanitário!
– Ora, cale-se!
O Programa (Nacional-Socialista) dos Direitos Humanos, na forma como está, submete a Constituição ao que chamo, em homenagem ao número do PT, 'Ato Institucional nº 13'. Os 'direitos humanos' são, no AI-13, o que a 'segurança nacional' era no AI-5 do regime militar. Em nome dela, podia-se suspender qualquer garantia; em nome deles, também.
A Conferência de Cultura, realizada há pouco mais de duas semanas, reuniu essa gente pitoresca que poderia ter saltado da tela do filme do Monty Python e definiu como uma das 32 prioridades de governo "registrar, valorizar, preservar e promover as manifestações de comunidades e povos tradicionais, itinerantes, nômades, das culturas populares, comunidades ayahuasqueiras" e por aí vai. Isso deve ser feito com recursos do estado, o Leviatã transformado em incubadora de estranhezas. Se você, leitor, não se encaixa em nenhum dos grupos acima, então é só um "entre outros", integrante de uma maioria que encarna aquela outra "tradição", permanentemente saqueada por particularismos. Refiro-me à velha e desprezível civilização ocidental, com o seu opressivo culto à razão, à ciência, à segurança jurídica, à produção, ao desenvolvimento, à propriedade privada, à língua pátria, às vacinas e aos antibióticos. Essas bobagens que nos têm causado tantos dissabores e que afastam o homem da sua "verdadeira essência".
O caso dos "ayahuasqueiros", os consumidores do daime, é emblemático. Eu não sei qual é a "verdadeira essência" do homem. Talvez eles saibam. Parece que a bebida os ajuda a chegar lá. Só não entendi por que essa "cultura" tem de ser protegida pelo estado, que deve, segundo a proposta, investir dinheiro público na sua difusão. Gilberto Gil, quando ministro, encaminhou um processo ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que o uso do chá seja considerado "patrimônio imaterial do povo brasileiro", ainda que você, leitor, reacionário como é, não tome nada além de chá de camomila. Os mais ousados arriscam contornar a melancolia desta vida besta com Prozac ou Zyban, que vieram à luz depois de muitas décadas, e milhões de dólares, de pesquisa. Os antidepressivos podem merecer uma ode, jamais uma litania; no máximo, um canto pagão, nunca um hino místico.
A proposta da conferência é um sintoma, não o mal em si. Não tenho sobre o futuro uma visão apocalíptica ou redentora. Não aposto nem em danação nem em salvação. A história não tem epílogo. Há uma perspectiva bem menos dramática do que o fim dos tempos. É a mediocridade, a vida das exigências rebaixadas. No Brasil e mundo afora, uma atmosfera de boçalidades doces e caridosas, excepcionalmente violentas, vai espalhando os seus miasmas. A língua alemã tem uma palavrinha bacana que merece entrar neste texto: Zeitgeist, ou "espírito do tempo". Esse espírito anda muito propício ao assalto à razão, à ciência, à segurança jurídica, à produção, ao desenvolvimento, à propriedade privada e à língua pátria – e isso serviria à construção do "novo homem". As velhas esquerdas acreditavam que o comunismo era o portal da nova era. Deu errado. As novas esquerdas desistiram de reinventar a civilização. Dá muito trabalho. Basta-lhes depredá-la.
Essa depredação da ordem democrática exige agora o patrocínio do estado e é promovida por seus próprios agentes. Em duas conferências, a de comunicação e aquela de cultura, os militantes aprovaram propostas que, se aplicadas, resultarão em censura à imprensa. O Programa (Nacional-Socialista) dos Direitos Humanos, na forma como está, submete a Constituição ao que chamo, em homenagem ao número do PT, "Ato Institucional nº 13". Os "direitos humanos" são, no AI-13, o que a "segurança nacional" era no AI-5 do regime militar. Em nome dela, podia-se suspender qualquer garantia; em nome deles, também.
Lula chegou à síntese perfeita "dessa nova segurança nacional" na semana passada, quando atacava, mais uma vez, a imprensa: "É triste quando a pessoa tem dois olhos bons e não quer enxergar. Quando a pessoa tem direito de escrever a coisa certa e escreve a coisa errada". As ditaduras costumam cassar do jornalismo o direito de escrever certas coisas. Mas só os regimes totalitários se arvoram em decidir o que é "certo" ou "errado". As ditaduras não têm vergonha de se impor pela violência. O totalitarismo, violento se preciso, quer se impor como senhor da virtude. O AI-5 foi pensado para uma ditadura; o AI-13, que pune quem "escreve a coisa errada", para um regime totalitário. Aquele só podia ser imposto debaixo de porrete; este outro tem o apoio entusiasmado de supostos "representantes da sociedade civil", as "minorias organizadas", e espera contar com nossa sujeição voluntária.
As tropas de assalto à ordem democrática estão ativas. Um desses ongueiros financiados pela Fundação Ford justificou assim o "caráter democrático" do programa de direitos humanos: "Ele foi debatido por 14.000 pessoas!". É mesmo? Um deputado federal em São Paulo precisa de, no mínimo, uns 100.000 votos para ter direito a ser apenas um voto na Câmara. Um senador precisa de mais de 8 milhões! Os militontos pretendem destruir o valor universal da democracia com o apoio de 14.000 sectários...
"Estou com saudade dos velhos marxistas", pensei alto outro dia em conversa com Diogo Mainardi. Ele respondeu com uma surpresa silenciosa, o que me permitiu emendar: "Você se lembra do tempo em que a gente contestava um pensamento que, por mais cretino que fosse, ainda aspirava à condição de um humanismo? Sabíamos que as teses daquela gente, quando aplicadas, haviam resultado no horror. Mas tínhamos de combater um aparelho teórico que, embora construído com mentiras, tinha ao menos bibliografia. Hoje restaram a barbárie, a pistolagem e a ignorância escandalosa". Eu estava, leitor, sob o efeito de uma terrível droga moral, que havia chegado ao blog na forma de um comentário.
VEJA noticiou na semana passada que Delúbio Soares, aquele!, foi patrono de uma turma de formandos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba, no interior de Goiás, uma instituição pública. Ele pagou 6.000 reais e deu uma palestra sobre "ética na política". Abordei o assunto e recebi uma mensagem de um professor da escola, membro do PT local. Numa língua entre o português e o javanês antigo, ele tentou me explicar: "Temos um entendimento sobre o mensalão bem mais amplo. Não achamos que a criminalização das pessoas que são acusadas de praticarem atos semelhantes (financiamento de campanha com dinheiro não contabilizado) venha resolver os problemas de corrupção de nosso país"... Ele tem razão. O entendimento civilizado dessa questão é mesmo menos amplo: lugar de bandido é na cadeia.
A civilização vencerá no fim? Essa história não tem fim. Estaremos sempre no começo.

terça-feira, 23 de março de 2010

REPUDIAMOS TODAS AS SERVIDÕES! INCLUSIVE A SERVIDÃO AO “PARTIDO”

via Reinaldo Azevedo | VEJA.com de Reinaldo Azevedo em 12/03/10

Recebo do poeta, tradutor e jornalista Nelson Ascher, que vocês conhecem muito bem, o artigo que segue. O que o despertou para o texto foi aquela incrível nota de "protesto" divulgada pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e pela Federação Nacional dos Jornalistas contra artigo publicado por Demétrio Magnoli na Folha. Devemos, pois, ser gratos àquela nota miserável, que fez com que Ascher homenageasse os leitores deste blog com esta belíssima profissão de fé na democracia e no estado de direito - com doses generosas de história e de filosofia da história. É isto: repudiamos todas as servidões - inclusive a servidão a um partido!
*
Caro Reinaldo,
Os ataques infames ao Demétrio Magnoli são uma afronta ao espírito democrático do debate, ao livre mercado de idéias no qual elas se impõem (provisoriamente) por seu conteúdo de verdade e coerência interna, e não na base do grito, da claque ou da torcida organizada; eles constituem, ademais, outra frente de batalha, aquela cujo objetivo é o de calar os dissidentes e quem discorde. Através de Demétrio, nós todos estamos sendo agredidos e/ou ameaçados.
É notório que Demétrio e eu temos discordâncias claras acerca do conflito no Oriente Médio, sobre suas causas e possíveis soluções; trocamos já palavras duras nas páginas da Folha quando éramos seus articulistas, e eu garanto que nunca nenhum de nós teve de consultar previamente qualquer instância do jornal ou de sua direção, submeter-se a qualquer censura antecipada ou cumprir determinações "superiores": ambos expressamos abertamente e sem mediações nossas mútuas diferenças - e é assim que deve ser, pois ambos pensamos independentemente de ordens ou determinações de patrões, chefes, líderes, partidos, governos, grupos de pressão etc.
Não posso, ademais, deixar de observar que os próprios termos usados no ataque infame do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e da Federação Nacional dos Jornalistas ao Demétrio seguem de muito perto aqueles usados contra mim num abaixo-assinado de 2003 que, capitaneado pela intelectualha esquerdofrênica USP-Unicampiana, pretendia tolher minha liberdade de expressão. Como aconteceu então comigo, estou certo de que os ataques ao Demétrio provam que ele está de fato fazendo seu trabalho honesto e competente de pensador independente e, com isso, tornando-se um empecilho para os que querem nos aprisionar num pensamento único, monocórdio, o dos atuais donos de um poder que toma características menos democráticas e legítimas a cada dia que passa, bem como dos asseclas, apaniguados e bajuladores (pagos ou não) desses.
Pilares da ordem democrática
O fato é que Demétrio está totalmente correto no debate a respeito das cotas raciais e da atual tentativa de racializar a cidadania brasileira, uma investida que carrega em si os germes da guerra civil e mesmo do genocídio, como vimos recentemente nos Bálcãs e em Ruanda. Esta é, hoje em dia e não só no Brasil, a nova frente de batalha daqueles que nunca desistiram de tentar derrubar pilares centrais da ordem democrática e moderna, como os direitos e responsabilidades individuais. Trata-se de uma loucura, mas, como se diz, de uma loucura com método. Sua proposta delirantemente utópica é a de fazer algum tipo de justiça histórica, só que uma justiça informada por uma historiografia enviesada e deturpada, bem como por recortes inviáveis e inaceitáveis da cidadania.
Nas mãos desses delinqüentes, a história, que é sempre uma hipótese em construção e ininterruptamente debatida a respeito do passado, converte-se em desculpa para dividir cidadãos constitucionalmente iguais em grupos artificiais aos quais, paralelamente, atribui-se uma vitimização ou uma culpabilidade ancestral. X% de melanina a mais na pele, e a pessoa deixa de ser um indivíduo igual aos demais em seus direitos e obrigações, um cidadão como qualquer outro, passando a se tornar sobretudo o representante de um grupo que, oficialmente tido como vitimizado, merece reparações; Y% a mais de melanina torna outro indivíduo o membro de um grupo marcado por culpas e crimes que ele pessoalmente jamais perpetrou, obrigando-o a pagar de alguma forma por isso.
Vale a pena lembrar que um dos objetivos centrais da democracia sempre foi o de acabar com a hierarquização social fundamentada em privilégios ou obrigações de nascença. Cria-se, assim, uma nova aristocracia de vítimas hereditárias e uma nova servidão cujas vítimas são indivíduos que, reduzidos apenas a membros de um grupo, carregam uma culpa igualmente hereditária, tudo isso fundamentado numa leitura parcial, mal-informada e delinqüente, de uma leitura altamente seletiva e anacrônica das hipóteses de alguns historiadores. Assim como, séculos a fio, os judeus foram considerados coletivamente culpados pela morte de Jesus Cristo, todos os doravante classificados como brancos serão eternamente culpados pela escravização de todos aqueles doravante classificados como negros em nosso país. Não haverá mais cidadãos nem haverá mais brasileiros, só os novos privilegiados e os novos responsáveis.
As escravidões
É preciso apontar a primeira falha, a falha central desse uso pseudojurídico da história: a escravidão foi, durante milênios e até há cerca de dois séculos, a regra, não a exceção, no mundo inteiro. Populações de todo o tipo foram escravizadas pelos mais variados agentes. A própria palavra "escravo" se refere originalmente aos eslavos cativos (ancestrais dos atuais russos, poloneses, iugoslavos etc.) que eram vendidos, na Idade Média, nos mercados de Bizâncio e do Oriente Médio muçulmano. Todas as civilizações antigas ou medievais se valeram do trabalho escravo, incluindo as pré-colombianas da Meso-América, que, antes da chegada dos europeus, faziam prisioneiros de guerra entre as demais tribos ou civilizações locais não apenas para submetê-los ao trabalho forçado, mas também para sacrificá-los no alto de suas pirâmides e, em seguida, consumir canibalisticamente sua carne.
Europeus escravizaram europeus, asiáticos escravizaram asiáticos, americanos pré-colombianos escravizaram americanos pré-colombianos e africanos escravizaram africanos. Ainda nos séculos 18 e 19, piratas do norte da África capturavam regularmente navios europeus ou americanos e vendiam suas tripulações e passageiros nos seus mercados de escravos. O tráfico transatlântico, do qual participaram membros das mais diversas etnias, línguas e confissões, foi, sem dúvida, uma das maiores empreitadas escravistas, mas o tráfico negreiro rumo às terras islâmicas não foi menor e perdurou por mais tempo. Hoje mesmo, em muitos pontos do planeta, ainda há milhões de escravos, inclusive na África, em países como o Sudão e a Mauritânia.
Nazismo e comunismo
E, se estamos falando de escravidão, não podemos deixar de mencionar os dois movimentos totalitários que a recriaram em partes do mundo que já haviam se livrado dessa instituição: o nazismo e o comunismo. Ambos escravizaram parcelas imensas das populações sobre as quais reinaram ou, em alguns casos, ainda reinam, como na Coréia do Norte e Cuba, país caribenho cuja população pertence ao estado ditatorial marxista e à família de capitães-de-mato que o chefia. É curioso, portanto, ver aqueles que ou fazem a apologia ou simplesmente fecham os olhos à escravização de toda a população cubana culparem pessoas inocentes pela escravização de gente morta há mais de um século. Acontece que não foi a esquerda que iniciou a campanha contra o trabalho escravo, mas sim europeus e americanos, em primeira lugar cristãos ingleses como William Wilbeforce.
De resto, é um anacronismo óbvio aplicar categorias normativas atuais (e, como podemos ver a respeito de Cuba, categorias nem sempre implementadas ou respeitadas mesmo hoje) a uma outra era histórica. Qualquer pessoa minimamente alfabetizada em história sabe disso, vale dizer, sabe que os homens e mulheres do passado pensavam, agiam e viviam de maneira diferente. Legislar retroativamente com vistas a compensar ações que não eram, nem tinham como ser consideradas criminosas no passado equivale, entre outras coisas, a um sentimento totalitário de prepotência, à idéia de que, de alguma maneira, o passado pode ser alterado, corrigido, punido ou compensado. Os escravos que existiram e morreram, bem como os senhores ou traficantes, fossem eles africanos, brasileiros, árabes, otomanos, bizantinos, chineses, mongóis, persas, aztecas etc., que também viveram e já morreram estão além e a salvo da justiça ou injustiça dos viventes.
Quem conheça a história e ame seu estudo sabe que ela é, em boa parte, uma procissão de horrores. Como queria Stephen Dedalus, o herói de James Joyce, ela é um pesadelo do qual nos cabe acordar. Ao contrário do que querem os que tentam nos entorpecer com estórias mal-contadas acerca do passado, a ação dos homens e mulheres vivos deve se dirigir a melhorar o presente e o futuro. A única - insatisfatória, mas nem por isso menos difícil ou urgente - forma de que dispomos de fazer não a inalcançável justiça histórica, mas, sim, uma espécie de justiça poética às inumeráveis vítimas do passado é garantindo a erradicação de qualquer forma de escravidão no nosso mundo atual e lutando para assegurar a plena igualdade de direitos (acompanhados de suas respectivas responsabilidades) a todos os indivíduos vivos ou por nascer.
A liberdade de expressão que os candidatos a censor fazem de tudo para tolher é uma das principais ferramentas desse esforço. Sem ela, que permitiu, por exemplo, todas as campanhas abolicionistas na Europa, Estados Unidos e Brasil, é bem provável que a escravidão teria perdurado por mais tempo. A bem dizer, uma das liberdades confiscadas ao escravo é a de se expressar.
Quem quer que tente impedir a livre expressão das opiniões alheias não está, de modo algum, compensando ou remediando a escravidão passada, mas, sim, instaurando a futura. A escravidão mais perigosa e perniciosa não é aquela abolida há um século ou mais, mas, antes, aquela que já existe e aquela que segue nos ameaçando com seu retorno iminente em cada ato ou ação que corrói e enfraquece a democracia. Por sorte, e ao contrário do que sucede com a escravidão do passado, esta é uma contra a qual todos os homens de bem podem  -e devem-lutar.

Artigo do Puggina: Erros da Campanha da Fraternidade

via VS Blog - O seu canal de informação católica de Aline Rocha Taddei Brodbeck em 27/02/10

Acabei de receber, aqui em casa, a Zero Hora de amanhã. Como sabem, as edições dominicais dos maiores jornais costumam chegar na tarde de sábado para os assinantes e as bancas.
Deparo-me com o invariavelmente excelente artigo do Percival Puggina, vigoroso escritor e pensador gaúcho, católico e fiel. Puggina é colunista da Zero Hora.
Segue o artigo:
Erros da Campanha da Fraternidade, por Percival Puggina*
Entristece-me o fato de a CNBB jamais esclarecer que ela não é a Igreja Católica. A CNBB é um ente burocrático, um órgão de apoio, de auxílio aos bispos. No entanto, o silêncio sobre sua verdadeira natureza faz com que, entendida como "a" Igreja Católica (algo infinitamente superior ao que a CNBB de fato é), ela se misture e nivele a outras organizações da sociedade (OAB, ABI, CUT, MST etc. e tal). É uma pena.
A minha consternação se agrava, contudo, pela reiteração de certos equívocos que ficam bem nítidos na atual Campanha da Fraternidade. Um deles está na confusão entre os campos da economia e da política. Os documentos da CNBB são useiros e vezeiros em misturar essas duas esferas da atividade humana, atribuindo à primeira aquilo que é próprio da segunda. Como consequência, pretendem conferir aos agentes econômicos obrigações inerentes às instituições políticas. Trata-se de uma desatenção ao próprio pensamento católico, que reconhece a autonomia das duas esferas. De um sistema econômico se espera que produza, ao máximo de suas possibilidades, riqueza, desenvolvimento, postos de trabalho, tributos e renda, ou seja, condições materiais para a melhoria dos padrões de vida da sociedade. É o que pede a Campanha da Fraternidade de 2010? Não. Ela, enquanto aponta idolatrias e excessos que todos condenam, quer que o sistema econômico nacional, priorizando a partilha e a solidariedade, rejeite as exigências do mercado, do consumo e do lucro. E gere empregos e tributos com penitência e oração?
Toda consciência bem formada se revolta com as tragédias da pobreza material, feitas de analfabetismo, baixo nível educacional e cultural, más condições habitacionais e sanitárias, abandono dos aposentados. Feitas também por corrupção, esbanjamentos, mordomias, absurdos desníveis na remuneração do serviço público e maus governos. Não é com a superação desses embaraços que venceremos a miséria e os desníveis sociais? Pois é tudo campo da política! Miséria e desníveis sociais são temas para os poderes públicos, que se apropriam de 40% do PIB nacional! As justas preocupações com partilha e solidariedade deveriam focar, principalmente, essa brutal ruptura com o Princípio da Subsidiariedade. É grave erro da campanha não dizer que os problemas do Brasil são muito mais políticos do que econômicos. Muito mais institucionais do que empresariais. Bons governos, com boas políticas, enfrentam essas dificuldades valendo-se da competente operação do setor privado.
Outro erro, ainda, está na influência marxista que se derrama sobre boa parte dos documentos da CNBB. Neles, o pobre, o pobre do Evangelho, sob influxo da mais do que reprovada Teologia da Libertação (TL), vira excluído. E fica subentendido que o excluído está excluído porque o incluído não o quer dentro. Assim, o apelo evangélico à caridade se converte em luta de classe. E saiba, leitor, que Bento XVI, ainda agora, no dia 5 de dezembro, olho no olho, advertiu os bispos brasileiros do Sul III e IV contra "os princípios enganadores da TL" e para "o perigo que comporta a assunção acrítica, feita por alguns teólogos, de teses e metodologias provenientes do marxismo, cujas sequelas mais ou menos visíveis, feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa e anarquia, fazem-se sentir ainda, criando, nas vossas comunidades diocesanas, grande sofrimento e grave perda de forças vivas". Será preciso dizer mais?

A charge minha de cada dia

via Blog do Simon Taylor de Simon Taylor em 27/02/10




Acolher ditadores é um mau exemplo para a democracia brasileira.


via joseagripino em 27/02/10


Os revolucionários bolivarianos que se aferram a ideia de conflitos irreconciliáveis entre os interesses das várias nações, e buscam adoção de uma política que visa a garantir pela força, se preciso, a supremacia de sua nação sobre as demais, são, de um modo geral, mais enfáticos ao insistir na necessidade e na utilidade da unidade interna da nação em prol do "bem comum". E para isso não interessa os meios que utilizam para a conquista de interesses. A revolução é apenas mais um desses métodos utilizados para a conquista plena do poder. A Ilha cubana de Fidel Castro é um exemplo inquestionável de como é possível perpetuar-se nas entranhas dos órgãos públicos a fim controlar tudo e todos.
São os ditos "engenheiros sociais" que buscam melhorar o seu país de um modo um tanto autoritário. E para isso usurpa o direito da oposição de se pronunciar. Ceifa a liberdade de imprensa. Tolhe o cumprimento das leis democráticas, e extingui as liberdades individuais.
Submetido ao planejamento governamental, o homem em Cuba é tratado como um soldado num exército. Não cabe a um soldado o direito de escolher sua guarnição, a praça onde servirá. Cabe-lhe cumprir ordens. E o sistema comunista – como sabiam e admitiam Karl Marx, Lênin e todos os outros líderes socialistas – consiste na transposição do regime militar a todo o sistema de produção de servidão. O ser humano é tratado apenas como uma peça do tabuleiro político para servir aos interesses da "revolução".
A morte do dissidente político Orlando Zapata, por greve de fome, é apenas mais um breve episódio de uma longa tradição de perseguição e opressão empreendida pelo Estado-Patrão cubano contra os que ousam defender a propriedade privada do pensamento, já que lá até mesmo as ideias são de posse estatal.
Daí ser vergonhoso o atual presidente do Brasil estender as mãos a um governo que transgride os interesses liberais e democráticos. Um péssimo exemplo para o mundo e para os brasileiros que lutam pelas liberdades civis. É inaceitável que a política externa do Brasil esteja eivada de estupidez ideológica a ponto de o governo brasileiro oferecer financiamentos públicos através do BNDES, à revelia do Poder Legislativo, para a ditadura dos irmãos Castro.
A contradição do governo Lula é ultrajante. Por exemplo, o PT diz que abraça os valores da democracia, mas ao mesmo tempo defende o regime cubano, a mais duradoura ditadura do continente que já matou mais de 100 mil pessoas. É o mesmo partido que culpa o embargo americano a Cuba por sua miséria e, ao mesmo tempo condena a globalização e chama o comércio com os americanos de "exploração". Ou ainda aquele que fala em "solução pacífica" enquanto incentiva atos de vandalismo dos ditos "movimentos sociais" como mecanismo de pressão.
Tanta incoerência, tanta contradição. Mas olhem que curioso. Observem a piscina da casa do Fidel Castro (foto acima). Ao fundo, constatamos que existe uma casa bem equipada e arborizada. Aparentemente não há defeitos algum.
Ora, se Cuba é um regime que prega a igualdade entre os povos como missão precípua, por que então sustentar tamanha iniquidade social dentro do próprio País? Será mesmo que os cubanos recebem um tratamento de saúde igual ao oferecido a Fidel? Será que o racionamento de alimentos e energia afeta o Todo-Poderoso comandante? Os prédios públicos de Havana são bem cuidados como os da mansão de Fidel? (foto abaixo)

Afinal, onde está a eficácia do sistema comunista idealizado por tantos "intelectuais" brasileiros? Felizmente, o Brasil optou pela democracia, sistema que valoriza os méritos dos indivíduos. É tão difícil compreender que a tirania política apodrece a sociedade e a própria significação do conceito de humanidade?
Portanto, no sistema socialista, tudo depende da sabedoria, dos talentos e dos dons daqueles que constituem a autoridade suprema. Ou seja, uma sociedade de privilégios materiais e intelectuais para poucos. Os líderes, os ditadores, são supremos; ao povo cabe simplesmente obedecer-lhes, como servos coloniais do século XVII. Essa é a realidade óbvia que os petistas não enxergam!
(Equipe Agripino)

Lula em Cuba: cinismo deslavado

via Reinaldo Azevedo | VEJA.com de Reinaldo Azevedo em 26/02/10

Por falar em editoriais, vale a pena ler o do Estadão sobre o "cinismo deslavado" de Lula em Cuba:


Do lado dos perpetradores

São de um cinismo deslavado os comentários do presidente Lula sobre a morte do ativista cubano Orlando Zapata Tamayo, ocorrida horas antes de sua quarta visita à ilha desde que assumiu o governo. Tamayo, um pedreiro de 42 anos, foi um dos 75 dissidentes condenados em 2003 a até 28 anos de prisão. Inicialmente, a sua pena foi fixada em 3 anos. Depois, elevada a 25 anos e 6 meses por delitos como "desacato", "desordem pública" e "resistência". Embora não fosse um membro destacado do movimento de direitos humanos em Cuba, a Anistia Internacional o incluiu na sua lista de "prisioneiros de consciência" ? vítimas adotadas pela organização por terem sido detidas apenas por suas ideias. Em dezembro, Tamayo iniciou a greve de fome por melhores condições para os 200 presos políticos do regime, da qual morreria 85 dias depois.

Lula conseguiu superar o ditador Raúl Castro em matéria de cinismo e escárnio. Este disse que Tamayo "foi levado aos nossos melhores hospitais". Na realidade, só na semana passada, já semi-inconsciente, transferiram-no do presídio de segurança máxima de Camaguey para Havana. E só na segunda-feira foi hospitalizado. O desfecho foi tudo menos uma surpresa para os seus algozes. Dias antes, autoridades espanholas haviam manifestado a sua preocupação com a situação de Tamayo, numa reunião sobre direitos humanos com enviados de Cuba. Ele morreu porque o deixaram morrer. Poderiam, mas não quiseram, alimentá-lo por via endovenosa. "Foi um assassínio com roupagem judicial", resumiu Elizardo Sánchez, líder da ilegal, mas tolerada, Comissão Cubana de Direitos Humanos.
Já Lula como que culpou Tamayo por sua morte. Quando finalmente concordou em falar do assunto, sem disfarçar a irritação, o autointitulado condutor da "hiperdemocracia" brasileira e promulgador recente do Programa Nacional de Direitos Humanos, disse lamentar profundamente "que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome", lembrando que se opunha a esse tipo de protesto a que já tinha recorrido (quando, ainda sindicalista, foi preso pelo regime militar). Nenhuma palavra, portanto, sobre o que levou o dissidente a essa atitude temerária: nada sobre o seu encarceramento por delito de opinião, nada sobre as condições a que são submetidos os opositores do regime, nada sobre o fato de ser Cuba o único país das Américas com presos políticos. Nenhum gesto de desaprovação à violência de uma tirania.
Pensando bem, por que haveria ele de turvar a sua fraternal amizade com os compañeros Fidel e Raúl, aborrecendo-os com esses detalhes? Ao seu lado, Raúl acabara de pedir aos jornalistas que "os deixassem tranquilos, desenvolvendo normalmente nossas atividades". Lula atendia ao pedido. Afinal, como observara o seu assessor internacional Marco Aurélio Garcia, "há problemas de direitos humanos no mundo inteiro". Mas Lula ainda chamou de mentirosos os 50 presos políticos que lhe escreveram no domingo para alertá-lo da gravidade do estado de saúde de Tamayo e para pedir que intercedesse pela libertação deles todos. Quem sabe imaginaram, ingenuamente ou em desespero de causa, que o brasileiro pudesse ser "a voz em defesa da proteção da vida aos cubanos", como diria o religioso Dagoberto Valdés, um dos poucos opositores da ditadura ainda em liberdade na ilha.
Lula negou ter recebido a correspondência. "As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardarem para si e depois dizerem que mandaram para os outros", reclamou. E, com um toque de requinte no próprio cinismo, concluiu: "Se essas pessoas tivessem falado comigo antes, eu teria pedido para ele parar a greve e quem sabe teria evitado que ele morresse." À parte a falta de solidariedade humana elementar que as suas palavras escancararam ? ele disse que pode ser acusado de tudo, menos disso ?, a coincidência da visita de Lula com a tragédia de Tamayo o deixou exposto aos olhos do mundo ? e não exatamente da forma que tanto o envaidece.
A morte de um "prisioneiro de consciência", a afirmação de sua mãe de que ele foi torturado e o surto repressivo que se seguiu ? com a detenção de dezenas de cubanos para impedir que comparecessem ao enterro do dissidente no seu vilarejo natal ? transformam um episódio já de si sórdido em um escândalo internacional. Dele, Lula participa pela confraternização com os perpetradores de um crime continuado que já dura 51 anos.

DUAS IMAGENS E UM TANTO DE PENSAMENTO. OU: O QUE LULA TERIA DITO A HERZOG…

via Reinaldo Azevedo | VEJA.com de Reinaldo Azevedo em 25/02/10


Vejam essas duas imagens. O que será que elas fazem aqui?
lula-banheira-de-sangue
capa-estadao-lula-fidel
Sabem vocês que operei algumas mudanças no blog há algum tempo, quando optei quase exclusivamente por textos meus. Escrevo o "quase" porque, às vezes, dou destaque a um artigo ou outro que saem na imprensa. E por que mudei? Porque vocês não precisam de mim para fazer "cola-copia" — ainda que eu raramente publicasse um texto sem comentário. Atendi a uma demanda que os comentários revelam: vocês entram aqui para ler o que eu escrevo. O que outros escrevem está no site e blog dos… outros! Com a mudança, optei também por um caráter ainda mais analítico, ainda mais reflexivo. Estamos aqui para tentar entender melhor a natureza dos eventos políticos; para, sempre que possível, tirar dos fatos o glacê da irrelevância e chegar ao que interessa. Resultado: os comentários, vamos dizer assim, explodiram; o número de visitas cresceu. Meu trabalho aumentou, hehe.
A charge do alto está publicada no blog CUBA DEMOCRACIA Y VIDA, de cubanos exilados na Suécia. Não poderia ser mais precisa na sua metáfora cruenta. Os irmãos Raúl e Fidel Castro estão mergulhados numa banheira de sangue, e Lula está tomando o seu lugar no macabro  ménage-à-trois ideológico. Desde a revolução, em 1959, somam 17 mil as pessoas executadas a mando da dupla, segundo informa O Livro Negro do Comunismo. Estima-se que outras 83 mil tenham morrido afogadas tentando deixar a ilha — na prática, um presídio comandando pela dupla de facínoras. Dada a população cubana, o número faz dos irmãos dois dos grandes homicidas da história.
Não obstante, em visita à ilha, o humanista Luiz Inácio Lula da Silva decidiu dar uma bronca nos dissidentes, que não teriam se esforçado o bastante para lhe entregar uma carta. E ainda acusou Orlando Zapata Tamayo de "ter-se deixado morrer". Tivesse tido a chance de falar com o preso, diz Lula, e talvez ele tivesse mudado de idéia. E mais não disse. Não se ouviu uma só palavra de Lula nem mesmo em defesa da democracia. Nada! Não se tocou no assunto dos presos políticos, que podem chegar a 200. Lula também não desconfiou em nenhum momento das condições em que Zapata, um operário, estava preso.  Deixou-se fotografar alegremente ao lado dos facínoras, e ele próprio, mais uma vez, decidiu ser o lambe-lambe (botas) de luxo.
Batia um papo com Diogo Mainardi ontem à tarde, e ele sintetizou como ninguém a postura do presidente brasileiro, que, na prática, censurou Zapata: "Pois é… Se Lula tivesse tido tempo de conversar com Vladimir Herzog, talvez ele não tivesse se enforcado; ou, então, teria convencido Rubens Paiva a não pular do helicóptero no mar". Trata-se de uma ironia amarga que dá conta do padrão miserável das escolhas éticas do lulismo. Todos sabemos que as duas pessoas citadas foram assassinadas durante a ditadura no Brasil. As ocorrências despertaram em todas as pessoas decentes a justa indignação. A reparação possível, diante do irreparável, se deu. E não há desculpa possível para aquela brutalidade.
E assim pensamos nós, os, vá lá, democratas liberais: ditaduras, todas elas, são odiosas; ditadores, todos eles, são desprezíveis; arbitrariedades do estado, pouco importa a coloração ideológica, são repugnantes. Assim pensamos nós, não eles. Ontem, no Congresso, enquanto representantes da oposição protestavam contra o mergulho de Lula na banheira de sangue, parlamentares da base de apoio corriam em socorro de Lula e, acreditem!, de Raúl e Fidel Castro. Seus críticos seriam "fascistas"!
Agora a outra imagem
Está claro o que faz lá no alto a charge. Mas e aquele pedaço da primeira página do Estadão de ontem? Reparem que, na primeira metade, na manchete, está a informação de que o Banco Central decidiu retirar R$ 71 bilhões do mercado. É uma medida para tentar dar uma desaquecida na economia e encarecer um pouco o crédito, esfriando a demanda. Pode ser a ante-sala de uma possível elevação de juros. No destaque menor, ainda no corpo da manchete, o fato de o superávit do governo ter atingido R$ 13,9 bilhões, o segundo melhor janeiro da história.
Empresários, banqueiros e toda gente pode dizer, concorde ou não com a medida: "Está aí um Banco Central que opera segundo critérios, eu diria, universais de mercado. Para ficar nos termos que os petistas gostam de usar: definitivamente, Henrique Meirelles não faz uma gestão "socialista" do Banco Central, não é mesmo?
Agora vejamos a segunda metade da imagem. Vemos Lula, de câmera na mão, fotografando Franklin Martins ao lado dos homicidas compulsivos.  Não muito longe dali, a polícia política reprimia manifestações discretíssimas de protesto contra morte de Zapata, que poderia se chamar Valdimir Herzog, Rubens Paiva ou Manuel Fiel Filho. No alto da página, o PT de mercado, que não viu mal nenhum em, felizmente, terceirizar a gestão do Banco Central e, em muitos aspectos, da própria economia. Logo abaixo, o apoio explícito de Lula a uma tirania.
A questão democrática
É este jogo do PT que confunde certos atores políticos e leva alguns tontos, especialmente no empresariado e na imprensa internacional, a ver o governo Lula com notável desinteligência. Os petistas, convertidos à economia de mercado, não se converteram, no entanto, ao liberalismo. A sua visão de mundo caracteriza o que se pode chamar de "capitalismo de estado": os empresários lideram o esforço produtivo, mas sob forte gerência estatal, que controla os tais setores essenciais. Vá lá… Para boa parte dos nossos empreendedores, isso é uma bênção. Ser amigo de Lula e do PT significa correr menos riscos. Para ele, vai bem assim. E o partido também não tem do que reclamar. A cada vez que cria uma dificuldade, pode vender uma facilidade.
Esse estado agigantado e devidamente aparelhado é a base de operação da nova classe social e de seus valores. Mas ele ainda não explicita a natureza do jogo, o que só se revela, aí sim, no terreno da política e, em certos casos, da polícia política. Essa relação arreganhada, festiva, com os ditadores cubanos é um sinal de que, mais importante do que os valores democráticos, são os vínculos de natureza ideológica  — e, acreditem, a "ideologia" é uma só, revelada em vários documentos do partido apresentados em seu recente congresso: o antiamericanismo!!! Ou, como dizem os petistas, o combate ao "poderio estadunidense". Nota à margem: no Brasil, é o sujeito falar ou escrever "estadunidense", e você saia de perto porque é encosto de mau espírito…
As esquerdas perderam a batalha da economia, já sabemos. Mas não perderam ainda a guerra de valores e eu diria que, em muitos aspectos, elas a venceram. A utopia que serviu para mascarar a prática sistemática do crime político é reciclada, em tempos de economia de mercado, para justificar outras falcatruas: a negociata com potentados da economia privada, a pilantragem da Bandalheira Larga, o enriquecimento ilícito, a roubalheira pura e simples. Por incrível que pareça, a banheira de sangue em que essas esquerdas mergulham é também fachada de uma banheira de dólares.
Ocorre que a gesta antiimperialista confere ao petismo certa aura de "resistência", de "construção de uma alternativa", de "competição" com os EUA, como diz um documento petista. Poucos se dão conta de que a democracia brasileira, já escrevi aqui, vive sob uma espécie de tutela de movimentos sociais, ONGs e entidades várias que se esforçam para torná-la… menos democrática! O truque é simples: redigem uma pauta que atende a seus interesses e aos do partido e decidem — ou decretam, como no caos do Programa Nacional-Socialista dos Direitos Humanos — que ali está a Suma Humanista. Discordar, então, de tal Suma já não é mais parte do jogo democrático, mas sabotagem.
Não pensem que Lula e o sorridente Franklin Martins, abraçado àquele banco de cadáveres, sonham comandar, um dia, um país socialista. Não! Eles sonham ser a direção de um partido único que elegesse os vitoriosos e os derrotados de um capitalismo renovado, que tenha aprendido a superar aquela coisa para eles odiosa chamada "democracia".
Para alguns empresários, tanto faz. Submetendo um ditado chinês a certa torção, eles poderiam dizer que não importa a cor dos ratos se eles alimentam os gatos.