Página

domingo, 15 de maio de 2011

Pausa para... hora da Justica: Bin-Laden preso no Brasil...

"Não é difícil imaginar isso: de acordo com os filmes de Hollywood, nove entre dez criminosos fugitivos escolhem o Brasil como sua terra de acolhimento (o décimo deve ir para o México e nunca se ouve mais falar dele). Desses que vieram ao Brasil, metade fica famosa, casa, tem filhos e passa a desfrutar de uma vida tranquila. São até convidados para falar na televisão.
(Quem quiser fazer uma pesquisa sobre os filmes de Hollywood que 'mandam' seus bandidos para o Brasil, estimulo a apresentar projeto: pode até ganhar uma bolsa do CNPq.)

Bem, e se Osama Bin-Laden bin Laden escolhesse o Brasil como sua terra de acolhimento e se por um desses azares da sorte (mas seria muito azar, porque aqui é quase impossível acontecer uma coisa dessas) ele tivesse sido preso no Brasil?
Veja abaixo os prováveis desdobramentos.


1. Os advogados dele teriam que estar presentes na hora da prisão para garantir seus direitos;

2. Todas as escutas seriam consideradas ilegais por não terem autorização de um juiz;

3. Os policiais e militares envolvidos seriam acusados de abuso de poder;

4. Em três dias, teria um habeas corpus decretado por irregularidade nas investigações;

5. Por ser réu primário, não possuir outra condenação, ter nível superior e endereço fixo, seria logo posto em liberdade;

6. Por possuir livre direito de ir e vir, seria liberado para visitas a Meca;

7. Pelo direito de ampla defesa, alocaria milhares de testemunhas a seu favor;

8. O processo levaria uma década, com ele em liberdade provisória;

9. Condenado à pena máxima de 35 anos por terrorismo, cumpriria 1/6 da pena;

10. No cumprimento da pena, poderia receber visitas das suas cinco esposas e seria liberado para sair nos feriados, inclusive no Natal (!);

11. Após alguns meses preso, um juiz decretaria que a prisão dele é ilegal porque o terrorismo não consta do Código Penal;

12. E para não manchar a imagem do Brasil no mundo como país politicamente repressor, ele seria obrigado a doar 10 cestas básicas para as obras assistenciais da Irmã Dulce.

Como mandam nossas leis, a Justiça teria sido feita!
"

Uma sociedade infantilizada

Uma sociedade infantilizada: "

Rodrigo Constantino, para a revista Banco de Idéias - IL

“Se salvar vidas é o único motivo para termos leis, nunca teremos leis suficientes.” (David Harsanyi)

Quando perdemos nosso direito de sermos preguiçosos, não saudáveis ou politicamente incorretos? Essa é a pergunta que David Harsanyi faz em seu livro “O Estado Babá”, que mostra com inúmeros exemplos como os americanos estão cada vez mais trocando liberdade individual por controle estatal.
A tirania das boas intenções costuma ser a mais perigosa de todas, pois os “bons samaritanos” jamais descansam em sua nobre missão de cuidar dos outros. Liberdade pressupõe responsabilidade, assim como liberdade de escolher tolices. Imbuídos de uma arrogância paternalista, os babás não aceitam isso, e partem para suas ações salvadoras: “Algo deve ser feito”, eis a reação dos babás diante de atitudes que não aprovam, significando sempre mais intromissão estatal em nossas vidas.
O grau de chatice dos babás chegou a um patamar insuportável. Como bem coloca o autor: “Para esses intrometidos, a utopia é um mundo sem fumantes, sem gordura, onde o álcool é bebido apenas com moderação, o McDonald’s vende Mc Nuggets de tofu com molho de baixa caloria e os seios nus de uma estrela pop são dignos de uma sessão no Congresso e de histeria em massa”.
O estado babá ocorre quando “o governo assume um hiperinteresse em microadministrar o bem-estar dos cidadãos”. Mas o governo vai além de seu papel quando tenta nos proteger de nós mesmos. Uma vez que esta porteira é aberta, o céu é o limite para os babás, que pretendem eliminar todo comportamento “prejudicial” ou “irracional” da face da Terra. A imprensa, com inclinação para manchetes aterrorizantes, joga mais lenha na fogueira, ajudando a criar um ambiente de pânico propício às intervenções dos babás.
O dogma compartilhado pelos babás é que se meter na vida alheia por meio das leis é a forma mais rápida de criar uma sociedade superior. O bom senso para determinar a fronteira legítima desta intervenção se perdeu faz tempo. Os “guardiões do estômago”, por exemplo, criaram uma verdadeira “milícia alimentar” para tentar barrar do cardápio os itens prejudiciais à saúde. Mas, se podemos proibir um ingrediente que não é saudável, o que impede o governo de proibir muitos ou todos eles?
Para sustentar suas medidas estúpidas, os babás não se importam em apelar para a tortura dos números. Exames com ratos de laboratório “provam” que vários alimentos podem matar, ignorando apenas que a quantidade ingerida pelos ratinhos seria equivalente ao jantar que um gigante consideraria exagerado. Na verdade, até água pode matar, se consumida em quantidade excessiva. Entre o remédio e o veneno, muitas vezes está somente a dosagem.
Mas nada disso incomoda os babás. Eles precisam salvar vidas! O terrorismo é constante: o açúcar é um veneno, a gordura e a fritura são armas letais, o cigarro é morte certa, até para fumantes passivos. Não obstante as mentiras e exageros dessas pesquisas, resta perguntar: por que cada indivíduo não deve ser livre para escolher como viver, ainda que sua escolha nos pareça destrutiva? A busca pela “saúde perfeita” é algo que nos remete ao nazismo. Sociedades livres devem se preocupar em garantir a liberdade de escolha.
Babás são presunçosos, e acreditam que sabem melhor que os outros como a vida deve ser vivida. Eles partem da premissa arrogante de que conhecem as escolhas “certas”. São moralistas autoritários, que desejam impor seu estilo de vida aos demais. Viver é assumir riscos, mas os covardes babás querem uma vida totalmente segura (e sem graça), e pior, querem obrigar os outros a desejar o mesmo.
Tudo que os liberais pedem é: deixem-nos em paz! Que cada um possa viver de acordo com suas próprias escolhas. Afinal de contas, até o fumo é muito mais saudável que o fascismo.
"

A democracia plugada


Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paulo
O dado impacta: já há mais de 2 bilhões de pessoas conectadas às redes sociais eletrônicas, quase um em cada três habitantes do planeta. A cada minuto, milhares de novos internautas ingressam no circuito tecnológico da informação, enquanto a assinatura de telefones celulares já passa da marca dos 5 bilhões. O mundo está plugado.
O fenômeno suscita estudos, debates e análises nas frentes de pesquisas sobre comportamento social, mas um aspecto chama a atenção pela importância que passa a ter para o desenvolvimento político das nações. A questão pode ser posta desta maneira: a Era da Informação Total, caracterizada pela interligação das comunidades mundiais por meio das infovias da web, contribuirá para o aperfeiçoamento da democracia? Ou, se quisermos puxar a questão para o território brasileiro, o que significa a existência no País de 45 milhões de internautas, número que lhe confere posição destacada no mapa mundial das redes? Poderemos contar com a melhoria dos padrões políticos, na hipótese de que parcela acentuada do eleitorado comece a socar os primeiros tijolos de uma democracia participativa plugada na eletrônica?
Vale recordar, de início, que a política, desde eras remotas, acompanha os fios da comunicação. Um ente se agarra ao outro, na extraordinária simbiose que amalgama o poder da palavra e a força das ideias. Na Antiguidade, os ideários fluíam pelo gogó e pelo gestual dos governantes, rito de que são ícones Demóstenes (384-322 a.C.), político que venceu a gagueira forçando-se a falar com seixos na boca e se tornou o maior orador grego, e Cícero (106-43 a.C.), advogado e mestre de civismo, famoso também pelo discurso contra o conspirador Catilina e considerado o maior orador romano. Da ágora, a praça central de Atenas, e do Fórum romano, o discurso político avolumou-se, saindo do Estado-cidade para o Estado-nação e agregando força na esteira dos ciclos históricos da comunicação: a era Gutenberg, no século 15 (criação da imprensa), a Galáxia Marconi (invenção do rádio, em 1896), que impulsionou a escalada de demagogos como Hitler e Mussolini, até chegarmos ao Estado-espetáculo, adornado com as luzes televisivas, a partir dos anos 1960, e com a imagem esbelta de John Kennedy. Nesse ciclo, a estética impõe-se à semântica e os atores políticos passam a incorporar elementos dramáticos ao desempenho, redundando não raro em performances mirabolantes com a finalidade de cativar e mobilizar as massas.
A política no Estado moderno ganha operacionalidade com a implantação do governo representativo pela Constituição francesa de 1791 ("os representantes são o corpo legislativo e o rei") e o corpo social faz-se representar por um grupo de pessoas que passam a agir de acordo com a "vontade geral". O modelo, porém, passou a sofrer questionamentos. A crítica era a de que o sufrágio universal não teria sido capaz de melhorar a condição de vida de milhões de pessoas. Lançava-se ali a semente da representação de grupos específicos, derivando daí a democracia de grupos e facções, de que são exemplo, na atualidade, os Estados Unidos. Aí, o voto enraíza-se nas localidades, servindo de escudo de grupos e setores. É também de Bobbio a crítica de que a democracia não tem cumprido suas promessas, entre elas, a educação para a cidadania, a justiça para todos e a segurança social. Não sem razão, a democracia representativa atravessa tempos continuados de crise, com o desvanecimento de partidos e doutrinas, o arrefecimento das bases, o declínio dos Parlamentos, fatores que, em contraponto, contribuem para fortalecer o Poder Executivo.
É dentro dessa moldura que se encaixa a "civilização eletrônica". No vazio entre o universo político e a esfera social, emergem novos polos de poder, a partir das entidades de intermediação social e, ultimamente, das redes sociais. O portentoso aglomerado que navega na internet é um caleidoscópio do pensamento social, particularmente de segmentos que trafegam no meio da pirâmide (ou do losango, como já se descreve o formato da geometria social brasileira). Encaixa-se na metáfora da pedra jogada no meio do lago, criando marolas que se desdobram até as margens. Não se nega que a "sociedade eletrônica" vive a infância, época das primeiras descobertas e da curiosidade. Banha-se de águas lúdicas. Daí não se poder ainda falar em democracia participativa, eis que milhares de internautas se valem das redes para enviar mensagens pessoais, postar fotos, divulgar vídeos, baixar músicas, instalar aplicativos e até namorar. A matéria política, que aparece a conta-gotas, indica que o revigoramento do espírito público tem muito caminho pela frente. Por enquanto não dá para apostar no "potencial revolucionário" das tecnologias modernas da informação.
Se o engajamento político da sociedade não adere à dinâmica das redes, é porque a esfera representativa também não tem sabido delas se utilizar. O forte da tecnologia eletrônica é a capacidade de gerar interação dos elos do sistema, políticos e eleitores. O que se observa, pelo menos no caso brasileiro, é o uso da web para veiculação unilateral de mensagens, a maioria de caráter autopromocional, a revelar o "chapa-branquismo" de nossa política. Quando o sistema for usado em prol do jogo interativo, poder-se-á acreditar numa base social envolvida com a política. Essa, aliás, parece ter sido a intenção de José Serra ao criar o seu site. O tucano dispõe de tempo livre para fustigar as frentes do governo. O risco é o de ficar confinado à gaiola individualista, que, ao menos até o momento, tem caracterizado a ação dos políticos conectados ao sistema.
Dito isso, vamos à resposta para a questão inicial: as redes sociais podem, sim, vir a melhorar os padrões da política brasileira na medida em que seus participantes façam a lição de casa. A começar pela maneira de entender e operar a tecnologia da informação. Deitar nelas apenas para cochilar de pouco adiantará.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO 
TWITTER: @GAUDTORQUATO 

Gramática lulista

Gramática lulista: "
"

Como escrever bem (e existem regras para isso) - Paulo Roberto de Almeida

"Meus vícios de escrita (e algumas regras para melhorar...)
Paulo Roberto de Almeida

Eu escrevo mal, eu sei. Não tanto coisas absolutamente erradas, ou estúpidas (embora sempre se encontre quem ache isso), mas basicamente construções difíceis, frases muito longas, palavras inventadas (do que não me desculpo, aliás), rebuscamento e prolixidade na expressão de um pensamento (se é que tenho algum), enfim, diversos vícios de linguagem, ou seja, de expressão oral e de escrita, que foram se acumulando ao longo do tempo, e dos quais só posso me desculpar junto a meus (poucos) leitores com promessas (vãs?) de que vou me esforçar para escrever melhor da próxima vez.
A que posso atribuir essas deficiências na expressão escrita (já que falo muito pouco, fora das aulas que ministro regularmente)? Erros de origem, provavelmente, agravados pelo desleixo em corrigi-los, por certo descuido com os aspectos formais da escrita. Mas não é apenas pelo seu estilo capenga e descuidado que meus textos são ruins; é também pelo desenvolvimento deficiente dos argumentos, se ouso agora incriminar também a substância de meus trabalhos.
Como sempre estamos procurando bodes expiatórios para nossas deficiências, aqui vão os meus. Minha primeira infância transcorreu num lar quase sem livros, carente de revistas e jornais, na total ausência de volumes enfileirados em alguma estante ou num canto qualquer da casa. Meus pais nunca terminaram o primário: tiveram de trabalhar desde muito cedo, e por isso não se poderia esperar que, na idade adulta, se convertessem, não em intelectuais, mas em pessoas motivadas pela leitura. O meio de informação habitual era o rádio (a TV só apareceu muito mais tarde), ou o que vinha na ruas e nas conversas com vizinhos e conhecidos de trabalho. Só aprendi a ler, como já disse, na “tardia” idade de sete anos, como era o hábito no primário de antigamente. Desde então, tentei me corrigir, lendo tudo o que estivesse a meu alcance, mas talvez eu me tenha motivado mais pelas ideias, em si, do que por sua expressão formal. Enfim, seja como for, nunca deixei de ler, o que pode ser uma base excelente para a melhoria do estilo e da correção formal e substantiva dos meus textos, mas parece que nunca aproveitei a oportunidade (talvez porque eu tenha me concentrado mais em livros de estudo, com o seu jargão prolixo e especializado, em lugar da boa literatura).
Depois, como me politizei muito cedo, sem nenhum desdouro por quem faz isso também, isso me levou a ler uma faixa determinada da produção nas humanidades: história, política, marxismo, economia e coisas em torno desse universo restrito. Convivi, portanto, com os “escritores” desse ambiente cheio de slogans (ou conceitos) politicamente marcados e por vezes até maniqueístas. Como eu me dirigi também muito cedo para a chamada “escola paulista de sociologia”, adquiri o terrível (temível?) jargão desse pessoal, em especial do mestre Florestan Fernandes, prolixo como poucos, com longas frases cheias de apostos e complementos. Enfim, eu me contaminei com esse tipo de escrita, que “deformou” (não hesito em dizer) completamente meu modo de expressão.
Devo dizer, também, que durante toda a minha educação formal – que eu reduzo apenas ao primário e ao ginasial, ou seja, dos sete aos quinze anos – eu nunca gostei de gramática, ou de Português em geral (como também tropecei muito cedo na matemática). Eu gostava de ler, mas não tinha nenhuma paciência pelas regras gramaticais, pelas normas de linguagem que era preciso decorar, pelo respeito a certas concordâncias ou construções estilisticamente corretas. Para mim, o mais importante era absorver as ideias e retransmiti-las de alguma forma, sem maiores cuidados quanto à forma. Devo ter passado impune por algumas reformas ortográficas e como eu gostava de ler livros antigos, também devo ter confundido formas de escrita e normas cambiantes. Para agravar o meu caso, saí do Brasil com 20 anos e passei quase sete anos completos no exterior, estudando exclusivamente em francês, falando espanhol (ou ensaiando outras línguas), com pouco contato formal com o Português (a não ser pela leitura dos mesmos livros no meu mundinho das ciências sociais e do marxismo).
Pronto, estão aí meus bodes expiatórios, os que explicam, pelo menos parcialmente, algumas das razões de minha horrível expressão escrita (claro, boa em comparação com a miséria educacional dos nossos tempos, mas sempre deficiente com respeito às normas cultas e elegantes da linguagem). Que posso fazer, então? Talvez ler mais literatura de boa qualidade, dedicar mais tempo à revisão dos meus textos, tentar expressar minhas ideias de forma mais clara, usar frases mais curtas, concentrar-me no essencial e deixar o acessório de lado (nessa tentativa ilusória de abarcar um problema por todos os seus lados e aspectos), enfim, tentar melhorar aquilo que é primordial nesse tipo de ofício que é o meu: ser atraente, interessante, conciso (já que ninguém tem mais tempo, hoje em dia, para ler textos longos). Pensando em tudo isso, vou tentar melhorar meu desempenho na expressão escrita recorrendo a algumas regras muito simples, cuja inspiração me veio da leitura de um texto na revista Piauí, “Manual de estilo para cientistas”, de Bernardo Esteves (Questões de Ciência, 11/05/2011; link: http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-da-ciencia/geral/manual-de-estilo-para-cientistas), mas que remete a um artigo do respeitado biólogo Kaj Sand-Jensen, (http://www.fbl.ku.dk/ksandjensen/presentation.html) da Universidade de Copenhague, autor de um clássico instantâneo da estilística científica: “Como escrever literatura científica consistentemente chata”, publicado em 2007 na revista Oikos (“How to write consistently boring scientific literature”, Volume 116, Issue 5, pages 723–727, May 2007, link: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.0030-1299.2007.15674.x/full).
Eu recomendaria uma leitura do seu original, mas vou aqui me contentar em retomar suas recomendações ao contrário, ou seja, invertendo o sentido original de suas recomendações – irônicas, por certo – para tentar apresentar algumas ideias positivas, quem sabe até úteis?, aos candidatos a uma boa escrita, a começar por mim mesmo. Portanto, ainda que eu me disponha a pagar copyright – ou talvez, mais apropriadamente, moral rights – ao cientista dinamarquês, eu tenciono converter suas regras da escrita chata em advertências ao projeto de escritor que pretende ser interessante (e lido).
Vejamos o que pode resultar.

1. Concentre-se no foco do problema
Vá direto ao assunto desde a primeira frase, eventualmente precedida de algum exemplo histórico (como é meu hábito) e literário que pretende realçar o problema a ser tratado. Diga logo de cara algo assim: “Este texto pretende abordar este problema e visa demonstrar esta coisa; meu método, ou meus procedimentos serão os seguintes: blá, blá curto”. Desenvolva a seguir seu argumento principal, mantendo o foco na questão que você de propôs tratar, fazendo eventualmente alguma alusão a questões paralelas que possam ter relevância para o problema central. Tire suas conclusões, dizendo claramente que é aquilo que você descobriu e faça algumas considerações finais sobre a importância desse tratamento para o estado da arte naquele campo (e sua contribuição para ele). Estaria bem assim, ou estou sendo muito elementar? Acho melhor ser simples e direto.

2. Tente ser original e demonstrar sua contribuição para o avanço da “arte”
Pessoas sem ideias se contentam em resumir contribuições alheias, no que não vai nenhuma grande tragédia. Se este for o caso, diga claramente: Fulano disse isto, Sicrano disse aquilo, e eu resumo o que disse Beltrano a respeito ou sobre os dois; mas tente, se possível, expressar uma opinião própria sobre a questão, ainda que seja a de dizer que você pretende apenas oferecer uma síntese que resumo o estado da arte dos outros. Se não tiver nenhuma ideia interessante ou inteligente para expressar sobre a questão, tente, pelo menos, formular algumas perguntas para pesquisa ulterior, mais ou menos neste sentido: seria útil pesquisar tal questão em sua aplicação ao caso brasileiro, ou então dizer que dados concretos sobre tais e tais manifestações do problema precisariam ser pesquisados com vistas a refletir sobre aqueles ensinamentos nesta ou naquela situação nova. Gostou?

3. Escreva contribuições concisas e objetivas, com frases legíveis e compreensivas
Tente seguir o estilo americano: frases curtas, muitos pontos, perguntas claras, afirmações diretas, sem rebuscamentos de linguagem, com eliminação de tudo que não seja absolutamente necessário para a compreensão do “seu” problema. Mesmo que tenha vontade de escrever um tratado erudito sobre o assunto, comece por expor o conjunto de forma breve, se possível com outlines prévios, enxugando tudo o que for secundário. Depois que terminar seu “mini-artigo”, você poderá se lançar na obra prima da sua carreira acadêmica, em algo que fique nos anos como o magnum opus daquela área; mas comece modestamente por favor, pois o efeito pode ser maior. Não é para ser curto e grosso, apenas conciso e objetivo. Pode até ter frases de efeito, mas apropriadas ao caso.

4. Explore implicações do seu problema e especule inteligentemente a respeito
Todo e qualquer problema humano está sempre relacionado a muitos outros, para frente, para trás, para os lados, em direção ao futuro, vindo de um passado mais ou menos próximo ou distante. Ou seja, você não está sozinho, e sua questão genial apresenta efeitos em cadeia ou impactos em outras áreas; portanto, explora essas possíveis interações e interdependências, visualize consequências desse problema para outras áreas, e até se permita digressões sobre os resultados de uma determinada ação naquele terreno (pode até ser a famosa lei das consequências involuntárias, mas sempre existo algo mais).

5. Mostre exemplos, casos análogos, dados concretos sobre o “seu” problema
Nada melhor para ilustrar uma digressão científica especialmente chata – e existem alguns filósofos franceses e sábios alemães que se especializam na chatice – do que mostrar exemplos concretos, casos reais, ações efetivamente perpetradas pelos agentes envolvidos no seu caso. Ser abstrato é vedado aos comuns dos mortais, e apenas autorizado a membros da academia e outras vacas sagradas. Como você tem de convencer pares, professores, curiosos em geral, que todos, em geral, sabem menos do que você naquela área específica (a menos que você esteja enganando todo mundo), você precisa ser o mais convincente possível. Nada melhor, portanto, do que trazer exemplos à colação (é assim que se diz nas teses jurídicas especialmente chatas?) para tornar sua demonstração perfeitamente clara e empiricamente verificável.

6. Exponha claramente o itinerário metodológico e demonstrativo do seu trabalho
Todo trabalho acadêmico apresenta uma estrutura muito simples, até repetitiva: geralmente ele tem uma pequena introdução, na qual se expõe o objeto a ser tratado, seguida da metodologia, ou das técnicas a serem seguidas no tratamento do problema; o argumento principal vai ser desenvolvimento no núcleo central do trabalho, em quantas partes forem necessárias para demonstrar, discutir, esquartejar um assunto determinado; finalmente se chegam às conclusões a serem tiradas do tratamento precedente; o resto é complemento (notas, bibliografia, anexos, etc.). O importante é que seu raciocínio seja muito claro quanto a essas diferentes etapas do trabalho de construção de uma explicação para o problema selecionado. Por isso, uma regra elementar deve ser seguida: antes de começar a escrever, pare e pense no seu problema. Quem não tem ideias claras, não pode, ou não consegue se expressar claramente, ou seguir um itinerário linearmente rigoroso de pensamento. Quando seu trabalho estiver suficientemente pensado, voilà, zut!, ele já está pronto: só falta escrever, mas isso é o de menos quando se sabe onde se quer chegar...

7. Seja claro nas expressões, use uma linguagem a menos sofisticada possível
Não existe nada entre o céu e a terra, neste vasto universo que ainda não é o nosso, que não possa ser explicado em termos simples, inteligíveis, compreensíveis a um leigo no assunto. Pense que você vai ter de explicar aquele problema para uma criança de dez anos, ou um adolescente de quinze, que seja (no limite para a sua mãe, que não é do ramo, digamos assim). Portanto, escolha expressões comuns, e se tiver de empregar termos técnicos, ofereça uma explicação mais palatável se eles forem suficientemente obscuros, talvez entre parênteses. Coloque de lado aqueles filósofos franceses que se especializaram em enganar os trouxas com frases incompreensíveis (e elas são mesmo). Essa coisa de jargão sofisticado geralmente é para iludir os incautos, portanto não abuse de sua permissão para falar difícil. Claro, não precisa descer ao nível rasteiro de certo personagem que se vangloriava de nunca ter tido diplomas na vida, e que falava deliberadamente errado para encantar o povão; mas não tente fazer de seu trabalho um exemplo do barroco linguístico.

8. Evite adjetivos, exploração de emoções, subjetivismos dramáticos
A vida e o mundo já são suficientemente complicados como eles são, mas um trabalho acadêmico não é uma novela mexicana, nem um dramalhão daqueles antigos. Adjetivos de qualidade – estupendo, magnífico, único, etc. – devem ser evitados absolutamente (e lá vou eu com um...). De forma geral, adjetivos e qualificativos devem ser banidos do trabalho, embora ele possa ter evidências quanto ao impacto significativo de certos fenômenos sobre a ação humana. Mas como diria um personagem famoso, todos os seus gestos devem ser friamente calculados, ou seja: evite grandes explosões terminológicas, quando você pode expressar a mesma ideia em tom mais comedido e, sobretudo, mais objetivo e contido. Eu, por exemplo, costumo chamar muita gente de idiota – e existem, efetivamente, muitos idiotas no mundo – mas o que é aceitável num post rápido em blog de divertimento não cabe num paper supostamente sério. Em outros termos, não deixe transparecer sua emoção no tratamento de uma questão, ainda que ela o coloque em sérios dilemas morais e em angústias existenciais. Fique frio...

9. Tente quantificar fenômenos, use números, mas não abuse da estatística
Tudo, com a provável exceção do amor (e talvez do ódio), pode ser quantificado, medido, colocado em gráficos e comparado a outras situações (anteriores, de outros agentes em outros lugares). Os economistas são pródigos em usar e abusar de estatísticas e os economistas teóricos gostam de encontrar uma equação que traduza a realidade dos indicadores a uma fórmula de sua modelagem que sirva para prever ou antecipar processos similares, podendo, portanto, ser objeto de políticas públicas, na área macroeconômica ou setorial. Se pudessem, eles resumiriam toda a complexidade do mundo numa fórmula mágica, do tipo: E = mc2. Nos assuntos humanos – e isso inclui a economia também – fórmulas e números são úteis, mas apresentam limites efetivos para sua utilização contínua, pela simples razão que os homens estão sempre ajustando sua conduta para obter a maximização de seus fatores e ativos em face dos constrangimentos do real – que são as ações dos governos (geralmente em seu detrimento, caro leitor) e as de outros agentes da sociedade. Por isso, faça recurso dos indicadores quantitativos e tente medir, ou mensurar, os problemas que são objeto de sua análise, mas não confie demais nos procedimentos estatísticos como indicativos de tendências futuras. Nada é imóvel neste nosso mundinho tumultuado...

10. Demonstre conhecimento das fontes, mas não abuse das referências
Eu já li muita monografia de aluno que, mesmo para fatos históricos indiscutíveis – uma guerra, uma revolução, enfim, coisas objetivas –, se esmeram em juntar uma pletora de citações e de referências bibliográficas para dizer, finalmente, o óbvio: “nossa civilização tem bases greco-romanas” (bem, não precisa citar nenhum grande historiador para saber disso, pois não?). Não é preciso carregar um paper, um trabalho mais alentado ou até uma tese doutoral com centenas de remissões anódinas, ou seja, tratando daqueles casos que já pertencem ao estado da arte do problema tratado. Fatos são fatos, por mais que se desgoste deles, e eles não vão deixar de existir porque algum autor tem uma opinião mais negativa sobre esses mesmos fatos (a dominação perversa do capitalismo financeiro monopolista, por exemplo). Todos nós estamos cansados de ver o capitalismo condenado ao desaparecimento como resultado das últimas dez crises ocorridas em seu itinerário tumultuado, não é mesmo? Bem, sendo mais objetivo, a regra aqui, e a última desta série desorganizada, é muito simples: erudição não precisa ser medida em toneladas de bibliografia; ela pode ser medida com comentários inteligentes à obra de um autor consagrado, o que normalmente exige mais inspiração do que transpiração. Portanto, seja comedido no “ajuntamento” (esse é o termo) de sua bibliografia de referência e tente trabalhar com os autores essenciais ao problema que você escolheu. Se algum outro autor não tem nada de relevante a dizer sobre o problema selecionado, ignore-o solenemente. Mas, em sentido contrário, não tente a sorte pescando na internet coisas que depois você não vai citar devidamente e dar o crédito a quem merece: os instrumentos de busca que os professores utilizam estão cada vez mais sofisticados, e seria muito triste alguém perder uma bela carreira por acusações de plágio ou falsificação de trabalhos alheios.

Seja feliz em seu trabalho, melhore a sua escrita (o que eu mesmo vou tratar de fazer) e avance alguns degraus na ladeira do conhecimento: você vai se sentir muito melhor olhando o mundo do alto de sua capacitação intelectual. Escreva claro, escreva bem, trate dos problemas como eles devem ser tratados: objetivamente, concisamente, reflexivamente.

Paulo Roberto de Almeida
(Brasília, 14 de maio de 2011)
"

Eles odeiam é a civilização!

Por Reinaldo Azevedo

Escrevi ontem um post post sobre o livro didático de língua portuguesa “Por Uma Vida Melhor” — não, não é a 539ª obra de Gabriel Chalita. Como ficou evidenciado, trata-se de um repto contra a norma culta. Seus autores sustentam que “é importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”. Uma das variantes é o “erro”. Assim, tem-se que, para esses valentes, há situações em que ele é preferível ao acerto. Só se esqueceram de considerar que, afinal de contas, cada usuário da língua pode errar à sua maneira.

Alguns bobalhões, achando que sou do tipo que se intimida com o fácil falar difícil, vêm me “informar” — vontade de gargalhar! — sobre os modernos estudos da “sociolingüística” (a minha ainda com trema), que eu teria ignorado no meu comentário. Essa gente vive na bolha de plástico de certos grupelhos universitários e está convicta de que, de fato, conhece o mundo. Quem não partilha de sua mesma loucura estaria desinformado. Qual é, manés? Conheço muito bem esse debate. Não tentem misturar as estações.

Uma coisa é entender por que a fala “inculta” do povo — e ninguém, com efeito, se expressa perseguido por um manual de gramática — é eficiente, funciona, comunica; outra, diferente, é sugerir que as variantes são só uma questão de escolha e que a norma culta é uma imposição do preconceito lingüístico, determinado — não se fala o nome, mas está subjacente — pela luta de classes. Trata-se de uma tolice, de uma falsa questão.

Um certo Jair afirma: “O autor [eu!!!] deveria, antes de sair enaltecendo a norma culta, perceber quantas vezes deixa de dizer os ’s’ nos plurais ou os ‘r’ nos verbos no infinitivo, para ver como funciona isso de ‘falar errado’. Mais: preconceito deste tipo é, para mim, tão detestável quanto o racial ou o de gênero.” Coitado do Jair — ou coitados dos alunos do Jair! Ele não entendeu nada! Eu exalto, sim, a norma culta como uma necessidade… normativa, se me permitem a tautologia. Ninguém defende que o sujeito tenha cassados seus direitos constitucionais por falar ou escrever errado.

A questão não diz respeito a direitos, energúmenos!, mas a oportunidades. Em qualquer lugar do mundo — Brasil, Cuba ou Suécia —, o pleno domínio da língua oficial acaba selecionando pessoas para determinadas atividades. Vale até para a China, que tem o mandarim como o idioma da administração do estado. Assegurar aos estudantes — que já falam e escrevem segundo os ditames de seus próprios erros e pautados por ignorâncias específicas — que os níveis de linguagem são equivalentes e que se está diante de uma questão de escolha corresponde a uma mentira, que será desmentida pela vida. Ocupar uma única aula que seja com esta bobagem, em vez de lhe ensinar análise sintática, constitui um crime contra a educação.

A quem interessa esse debate sobre preconceito lingüístico, níveis de linguagem, eficiência da comunicação e afins? Aos estudantes? Não! Isso é, e deve ser, preocupação de especialistas, inclusive os do ensino. Se um professor consegue identificar os erros mais freqüentes de seus alunos — tendo a norma culta como referência —, se consegue caracterizá-los, entender a sua natureza, então se torna certamente mais fácil ensinar a, vá lá, língua oficial.

O país vive um fenômeno terrível. A escola era um privilégio, expressão óbvia da injustiça social, o que condenava o país ao atraso. Era para poucos, mas, sabe-se, eficiente naquele pequeno universo. A necessária massificação trouxe consigo a perda da qualidade. Uma escola universalizada é necessariamente ruim? Não! Mas, para ser boa, precisa operar com critérios muito rígidos de seleção de mão-de-obra e de avaliação de desempenho dos professores — além, obviamente, de contar com infra-estrutura adequada. Não temos nada disso.

A “democratização” do ensino só faz sentido e só será útil aos mais pobres se estes puderem ter acesso aos códigos da cultura que ditam as escolhas relevantes que se fazem no país. Ninguém nega que os milhões de brasileiros que se apropriam da língua à sua maneira sabem se comunicar e até descobrem modos muito criativos de fazê-lo. Mais: sabem os especialistas que a mais errada expressão de uma língua conserva intocada a sua estrutura profunda. Mesmo o discurso dos loucos obedece a certas regras. Levar esse debate à sala de aula é uma tolice, uma perda de tempo, uma estupidez.

Uma das marcas históricas do Brasil é a unidade lingüística — e sempre soubemos lidar bastante bem com as diferenças, sem que prosélitos tenham de transformá-las numa teoria do poder. Ainda hoje, quando especialistas mundo afora pensam as condições objetivas dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), essa unidade distingue positivamente o nosso país. Ah, não se de depender dos autores do livro “Por Uma Vida Melhor”. Para eles, o ensino da língua portuguesa se confunde com uma imposição de classe.

Não deveríamos estar expostos a essa picaretagem, mas estamos. Chegamos a esse debate miserável depois de três décadas de militância ativa do petismo nas universidades e nas escolas. Já escrevi aqui outro dia e reitero: nem se pode dizer que foi o velho marxismo que fez isso com a inteligência brasileira. Essa boçalidade, acreditem, nem mesmo marxista é. O antigo comunismo conjugava com a sua vocação homicida a crença num novo homem, que desfrutaria dos bens da civilização quando se libertasse da opressão dos burgueses e aristocratas. Essa gente que hoje dá as cartas na educação tem um ódio muito mais perverso e devastador do que o ódio de classe: ela odeia é a civilização propriamente dita..

Para essa canalha, o homem se perdeu definitivamente quando passou a andar com a coluna ereta. A partir daquele momento, estava destinado a devastar a natureza e a criar normas, inclusive as da linguagem, que só serviriam à opressão.

sábado, 14 de maio de 2011

A aula de Dilma Rousseff: como discursar sem completar nenhum raciocínio

Por Augusto Nunes

Ao chancelar o livro didático que ensina aos brasileiros que falar ou escrever errado está certo, o Ministério da Educação homenageou o ex-presidente Lula: é assim que ele se expressa. Se quiser livrar-se de ciumeiras, convém ao ministro Fernando Haddad afagar o ego da presidente Dilma Rousseff. Uma boa ideia talvez seja usar o sistema de educação à distância para ensinar que qualquer raciocínio precisa ter começo, meio e fim. Para tanto, basta mostrar aos estudantes o vídeo divulgado pelo Implicante. Vendo e ouvindo Dilma Rousseff, todos aprenderão o que não podem fazer.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Livro didático que faz a apologia do erro: exponho a essência da picaretagem teórica e da malvadeza dessa gente

Por Reinaldo Azevedo

Escrevi abaixo um primeiro post sobre um livro de língua portuguesa chamado “Por Uma Vida Melhor”, que faz a apologia do erro, embora uma das autoras tente negar o óbvio. Demonstrarei a fraude intelectual e técnica em que se sustenta a tese daqui a pouco. Começo este texto pelo óbvio: o nome é péssimo. “Por Uma Vida Melhor” pode ser título de livro de medicina, de religião e de auto-ajuda, mas não de língua. Gabriel Chalita, que me lê com enorme prazer secreto, vai pensar: “Esse nome me pertence”, enquanto escreve seu 437º volume sobre filosofia criativa, depois de mandar mais uma carta fofa para o padre Fábio de Melo, aquele que canta e encanta.

Terá certamente uma vida melhor o aluno que dominar o instrumental da norma culta da língua, contra o qual o livro se posiciona abertamente. Assim, esse “instrumento didático” que conta com o endosso do MEC, se algum efeito tiver, será no sentido de piorar a vida do estudante; na melhor das hipóteses, contribui para mantê-lo na ignorância.

Onde está a fraude intelectual do negócio? Sim, é um negócio! Abaixo, segue reproduzida uma página do livro em que os autores defendem por que é perfeitamente aceitável dizer e, fica claro!, escrever:
“Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado“.
Leiam. Raramente vi uma vigarice intelectual em estado tão puro. Volto em seguida (se a leitura estiver difícil, clique na imagem que ela será ampliada).


livro-didatico1

O que vai acima é só uma conversa mole descrevendo por que, para usar a linguagem técnica, o “emissor” conseguiu transmitir uma “mensagem” eficiente. Ocorre que o fenômeno da comunicação e, por conseqüência, da cultura vai, e tem de ir, muito além da simples eficiência. Ora, comunicamo-nos o tempo todo por códigos que não são verbais. Um simples arquear de sobrancelhas diz muito mais, a depender do contexto — como bem sabem todos aqueles que têm filhos adolescentes — do que um discurso articulado em palavras. Nem por isso a escola vai se ocupar agora de decodificar esses sistemas pessoais de comunicação.

Uma coisa é explicar por que uma mensagem fora do padrão formal da língua funciona; outra, diferente, é atestar a sua validade como uma variante da língua. Não dá! Português não é inglês, por exemplo. Na nossa língua, os adjetivos têm flexão de gênero e número, e os verbos, de número. Quem dominar com mais eficiência esse instrumental terá vantagens competitivas vida afora. O que esses mestres estão fazendo, sob o pretexto de respeitar o universo do “educando”, como eles dizem, é contribuir para mantê-lo na ignorância.

Uma das autoras, Heloisa Ramos, concedeu uma entrevista ao iG e demonstrou que tem talento para humorista involuntária. Ela nega que o livro faça a apologia do erro e afirma: “Esse capítulo é mais de introdução do que de ensino. Para que ensinar o que todo mundo já sabe?” Boa pergunta, minha senhora! Pra que ensinar alguém a falar errado se todo mundo já sabe fazê-lo por conta própria, não é mesmo? Sem contar que o erro, convenham, não tem norma, certo? Cada um fica livre para cometê-lo à sua maneira.

Dona Heloísa tenta negar o que seu livro explicita. Acima, nas suas paginas, lê-se com clareza inequívoca: “É importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”.

Faço a pergunta de sempre de Didi Mocó? “Cuma???” Ao que Mussum emendaria: “Só no forévis no povo!!!” Bons tempos em que falar errado era norma entre os “Os Trapalhões”!

Huuummm… Diga aí, professora: quando é que o erro é mais adequado do que o acerto?

A mestra segue com seu talento para o humorismo na conversa com o iG:
“Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação. Por exemplo, na hora de estar com os colegas, o estudante fala como prefere, mas, quando vai fazer uma apresentação, ele precisa falar com mais formalidade. Só que esse domínio não se dá do dia para a noite, então a escola tem que ter currículo que ensine de forma gradual”.

Uau! Entendi a preocupação. Fico cá a imaginar os estudantes se martirizando, na conversa com os colegas, preocupados em empregar a norma culta, muitas vezes ensinada com o brilho que sabemos, tendo como instrumento didático um livro como “Por Uma Vida Melhor”… De resto, como diria a doutora, por que contestar o que ninguém afirmou? Quem é que disse que o domínio da norma culta vai se dar do dia pra noite?

Pra que escola?
Escola é lugar de formalização do conhecimento, segundo o padrão culto, sim, senhor! Como teria dito o próprio artista, para que se possa pintar como Picasso aos 70 anos, é preciso saber pintar como Rafael aos 5, entenderam? O leitor sabe que este escriba mesmo mescla a tal norma culta ao uso informal e sem gravata da língua. Para que se chegue a ter um estilo, uma escrita pessoal, é preciso que se tenha o domínio do instrumental técnico.

Ninguém precisa de professor, minha senhora, para se comunicar de modo eficiente com os seus pares. Fosse assim, os analfabetos morreriam à míngua; fosse assim, Brasil afora, a nação estaria esfaimando. Os professores existem justamente para lembrar que a norma culta existe, que ela é importante, que, à diferença de servir à discriminação, é uma corretora de diferenças e de desigualdades.

Nem Paulo Freire…
Lá vou eu mexer com uma das divindades brasileiras — como se divindades humanas me constrangessem… Nem Paulo Freire ousou tanto na estupidez militante. Ele foi o criador de um método de alfabetização de adultos que se pretendia revolucionário. A partir do chamado “universo do educando”, de uma palavra que remetesse a um objeto ou realidade que fizesse parte do seu cotidiano, iniciava-se a alfabetização, que corresponderia, na verdade, a um processo de conscientização política que conduziria à libertação. Libertação do quê? De muita coisa, mas basicamente da tirania do capital.

Tratava-se um “bobajol” formidável, mas se diga uma coisa ao menos em defesa de Paulo Freire: sempre defendeu o uso da norma culta. Naqueles bons tempos, as esquerdas ao menos acreditavam na alfabetização do povo — para fazer revolução, claro!, mas acreditavam.

O neoesquerdismo do miolo mole, na sua fase de apologia do pobrismo, desistiu dessa bobagem. Esses vigaristas intelectuais estão certo de que o povo desenvolveu valores que lhe são próprios, que o distinguem da chamada “cultura da elite”. E deve ser respeitado por isso. A chegada do Apedeuta ao poder, com a sua compulsão de fazer a apologia da ignorância, parece dar razão prática a essa estupidez. Até parece que a complexa equação econômica em que se meteu o petismo, tendo de conservar os fundamentos do governo anterior, foi comandada por prosélitos do analfabetismo. Não foi! Ao contrário! Quem cuidou da operação foram pessoas com sólida formação intelectual.

Dona Heloísa, uma deslumbrada com o “povo”, não sabe quão reacionária está sendo; não tem idéia do autoritarismo que está na base de sua teoria. Não quero usar o exemplo pessoal. Mas sei de gente que se livrou da pobreza extrema apenas porque conseguia dominar determinados códigos de uma cultura que não seria própria àquela faixa de renda.

Pessoas que desrespeitam os pobres fazem de sua pobreza uma cultura alternativa. Gente decente reconhece o valor intrínseco de certas conquistas — como o domínio da norma culta da língua — e luta para que o acesso a esse código seja um direito de todos.

Ouvido, o MEC defendeu a adoção da obra como um dos livros de referência. Alguém aí se surpreendeu? Para encerrar: tentamos saber por que a nossa escola é tão ruim. A vertente esquerdopata-sindical vai acusar a falta de recursos e os baixos salários dos professores. Não ganham bem, mas, dada a realidade brasileira, também não ganham tão pouco. Não importa! Dêem um salário milionário à categoria, e não saíremos do pântano enquanto valores como o que orientam a estupidez acima forem influentes. Um dos fatores que conduziram o ensino brasileiro ao desastre que aí está foi a substituição do conteúdo pelo proselitismo, trabalho conduzido pelas esquerdas “sindicalentas” da educação.

domingo, 8 de maio de 2011

A incerteza voltou com a inflação


Revista Exame, de 04.05.2011

O governo Dilma Rousseff escolheu uma postura nebulosa no combate à inflação. E isso está gerando uma insegurança que há muito não se via na economia brasileira

Salvar notícia
 
 Comentários (0)Views (5019)
Alexandre Battibugli/EXAME.com
Legumes à venda
Um pouco de inflação não dói?: ninguém mais duvida que os preços estão subindo. A dúvida é se o governo está correto ao atacar com mão leve a inflação
A economia brasileira usufruiu nos últimos anos, de um longo pe-ríodo de extrema confiança nos seus fundamentos. O êxito do modelo de sustentação da estabilidade — o tripé formado por câmbio flutuante, geração de superávit nas contas do governo e metas para a inflação — era quase um consenso.
Ao menos nas duas últimas eleições presidenciais, candidatos sérios ao Planalto não ousavam contrariar tais princípios. Do final do ano para cá, porém, vem crescendo a dúvida sobre o compromisso do governo com a manutenção do tripé. Estejam as críticas certas ou erradas — e os dados de hoje não permitem nenhuma afirmação categórica nesse sentido —, o fato é que esse debate representa, por si só, uma má notícia: a volta da incerteza à cena brasileira.
No plano da economia, não existe nada mais corrosivo para as empresas, o cidadão comum e até para o próprio governo do que a ausência de parâmetros seguros para planejar o dia a dia. O que está deixando muitos analistas atônitos é a atuação do governo Dilma Rousseff, nos seus primeiros quatro meses, nos fronts fiscal, monetário e cambial.
“O mercado está confuso porque a política econômica tem tentado perseguir simultaneamente vários objetivos díspares”, diz o economista Cláudio Haddad, presidente da escola de negócios Insper, de São Paulo. “De um lado, o governo anuncia um ajuste fiscal, mas, de outro, continua a gastar.
Além disso, embora a presidente Dilma tenha reafirmado seu compromisso com a estabilidade, o Banco Central parece relutante no combate à inflação. Por fim, algumas autoridades pregam a desvalorização do real, mas o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconhece que o governo não tem como evitar a queda do dólar.”

Um país sem oposição: raízes da orfandade política da classe média

Por Bolívar Lamounier

O país está sem oposição: eis a queixa que a classe média vem fazendo insistentemente desde o início do ano. O crédito de confiança que todo mundo deu a Dilma Rousseff está minguando, a inflação de 6.51 é uma séria possibilidade de retrocesso, irregularidades começam a despontar em vários setores…, e a oposição, nada.

A indignação e os impropérios que permeiam as “cartas do leitor” e as redes sociais são mais que compreensíveis, mas não são suficientes. A mencionada situação de orfandade a que me refiro está a exigir um esforço mais sustentado de reflexão.

Parece-me útil distinguir três aspectos, ou três níveis de análise: o quadro político-partidário, o andamento do governo Dilma e a opinião pública, ou seja, os que compartem o mal-estar a que acima me referi.

A conjuntura político-partidária obviamente não poderia ser pior.

Do lado governista, a aliança PT- PMDB e seus apêndices cumprem o script que lhes foi reservado. Podem espernear à vontade no que toca à repartição das benesses, mas devem permanecer calados quanto ao restante.

Quanto à oposição, não resisto a citar, com alterações apenas de forma, um comentário da leitora Maria Amélia de Oliveira Nogueira: “a oposição parece preocupada apenas em lamber suas próprias feridas; perde-se em suas discussões intestinas e em seu tosco rame-rame. Kassab forma seu novo partido, Serra não sabe se apóia o Kassab ou não, Alckmin chora a perda do Chalita e execra o que o Serra fez e Aécio não consegue decidir se é light, pró-PT ou tico-tico no fubá. Enquanto isso o Fernando Henrique fala sozinho, sem repercussão prática no PSDB e o “cupim”, que é o PT, fica à vontade para se alojar nas entranhas deste pais.

Essa é a situação, não há como negar. O que eu posso acrescentar não melhora em nada o quadro acima esboçado. O DEM continua sem rumo, talvez até sem futuro. O PSDB tem um cerne robusto – o legado de Fernando Henrique -, mas, ironia das ironias, nenhum dos três líderes mencionados no parágrafo anterior o assume de peito aberto. Concentram-se numa disputa sem grandeza, pois sem uma agenda digna do nome e sem uma postura oposição, o capital político do partido poderá se esvair de uma hora para outra.

Quem herdará o espólio do PSDB, se ele for de fato para o brejo? O PSD de Kassab? Não quero fazer um pré-julgamento taxativo, mas devo confessar o meu ceticismo. A meu juízo, o que levou Kassab a optar pelo vôo solo não foi um desejo de se destacar entre as forças de oposição; muito pelo contrário, foi um desejo de se juntar à situação. E é o que provavelmente fará à medida que for lidando com os problemas práticos que se antepõem à formação de um partido eleitoralmente competitivo. O tempo de televisão, por exemplo. Desconectado da oposição, Kassab irá buscar ajuda no governo, ao preço, evidentemente, de se bandear de mala e cuia para a situação.

Claro, os argumentos precedentes devem ser atenuados em vista de estarmos apenas no quinto mês do governo Dilma Rousseff. A inércia da oposição deve-se em parte a este fato. Sem um desgaste perceptível, sem erros clamorosos, como poderá a oposição nominal transformar-se em oposição efetiva?

Realmente, ainda não há um problema grave, com ampla ressonância popular. Nada há que desperte ou pelo menos incomode a sociedade de forma generalizada, aí incluídas as camadas de menor renda – o “povão”. É sobretudo por isso – por não ter um foco ao qual se opor como verdadeira força política – que a oposição nominal carece de iniciativa.

Neste começo de governo, o que poderá alterar tal quadro é sem dúvida a inflação. O governo obviamente a teme: sabe que a inflação desgasta, e desgasta de maneira simultânea e generalizada, em todas as camadas sociais. Mas também teme adotar uma política econômica contracionista, com forte redução do gasto público e do crescimento. Esta é a questão central.

Ao dizer que ainda não há um problema grave, refiro-me evidentemente a um problema capaz de corroer de forma rápida e generalizada o sentimento governista que se observa atualmente no país. A situação da infra-estrutura é catastrófica (vide aeroportos). Irregularidades e casos de corrupção começam a pipocar no Executivo, no Congresso e em governos locais dirigidos por partidos alinhados com o governismo na esfera nacional. A Copa do Mundo de 2014 periga de se transformar num monumental fiasco.

Mas nenhum dos problemas referidos no parágrafo anterior tende a produzir impactos rápidos e generalizados. Podem erodir pouco a pouco o apoio social ao governo, mas nada sugere que se acumulem e superponham a ponto de polarizar politicamente o país em termos de governo e oposição. São problemas sentidos mais fortemente pela classe média – vale dizer, pelos cidadãos que, em virtude de seu nível educacional elevado ou de seus valores, têm condições de os avaliar continuamente. Creio que a orfandade política da classe média pode ser analisada com proveito por este ângulo.

O argumento que venho tentando expor é que o sentimento de orfandade decorre de três conjuntos de fatores. Dos dois primeiros eu já falei: a crise dos partidos de oposição e a falta de uma questão catalisadora; mesmo a inflação, embora esteja subindo de forma preocupante, não atingiu ainda um nível capaz de polarizar politicamente a sociedade.

Para concluir, passo ao terceiro fator: à própria classe média. Refiro-me a uma debilidade de consciência política que me parece própria dela. Informação, não lhe falta; capacidade de se indignar, tampouco. Mas estes dois recursos são em geral neutralizados por um peculiar irrealismo e por um sentimento exagerado de impotência.

O irrealismo leva-a a desacreditar da possibilidade de mudanças e a aceitar sem sentido crítico a lenga-lenga de que todos os nossos males remontam à colonização portuguesa. A história apenas reproduz uma danse sur place, um ciclo imutável, que somente pode ser quebrado no dia do Juízo Final, por uma revolução purificadora.

Nessa representação fantasiosa do universo político e social, só existem dois pólos imensamente distantes entre si. Num extremo, uma passividade indignada, ou resignada, tanto faz; no outro, a idéia romântica de uma revolução total, apocalíptica. Instituições, imprensa, associações, reuniões, petições, abaixo-assinados, advogados, Ministério Público…, tudo isso parece carecer de existência real. Inexistindo pontos de apoio idôneos, a participação é impossível ou inócua. Como alternativas, restam, pois, somente a indignação vazia e a auto-flagelação.

sábado, 7 de maio de 2011

Em dois editoriais, as bases teóricas para uma ditadura exercida por pessoas boas!!!

Por Reinaldo Azevedo

Não! Eu não vou desistir de apontar as ações e avaliações que considero absurdas e atentatórias ao estado de direito. Até porque estamos diante de uma manifestação apenas; não é a primeira nem será a última. Uma coisa é ser favorável, como sou, à união de gays e até mesmo à adoção de crianças; outra, muito diferente, é defender a maneira heterodoxa como esse “direito” passou a ser reconhecido no Brasil: contra o que vai explicitado na Constituição, por decisão do Supremo, que, então, usurpou o papel do Congresso e se fez de legislador. A pergunta óbvia, que ninguém responde, é esta: será apenas nesse caso, que diz respeito aos gays, ou a prática se estenderá a qualquer assunto?

Boa parte decidiu não pensar, mas torcer. Haveria o risco de o pensamento ser confundido com atraso! Nestes termos estão sendo colocadas as coisas: quem apóia a decisão do Supremo é “progressista” e “laico”; quem não apóia é “atrasado” e “religioso”. É a estupidificação a que a militância politicamente correta conduz o debate. Cria-se uma falsa clivagem para driblar a questão essencial. Pode-se ser, como é o caso deste escriba, favorável ao mérito da decisão, mas absoluta e resolutamente contrário à forma escolhida. Ela esculhamba a democracia e transforma o Supremo numa espécie de Congresso Paralelo.

Hoje, Folha e Estadão publicaram editoriais a respeito. São dois exercícios nada meritórios de falácias lógicas. Seguem trechos do da Folha, em vermelho. Comento em azul:

O fato de a Carta omitir a união homossexual não impede seu reconhecimento, entendeu o STF. Se impedisse, haveria contradição com um objetivo fundamental da lei maior, consagrado logo no artigo 3º: “Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Já respondi ontem a essa questão. Levados a termo todos os princípios abstratos da Carta, não haveria uma só restrição ordenadora que parasse de pé. Mas isso ensejaria um debate longuíssimo. Constituições são emendadas e leis são reformadas justamente quando se considera que elas já não atendem às demandas da sociedade e dos indivíduos. A Folha faz uma coisa curiosa: nega a óbvia desarmonia Constitucional para poder justificar a decisão atabalhoada do Supremo. Atenção, redator! Atenção, Folha! Não é que a Constituição “omita” os homossexuais quando define união estável! Nada disso! Ela ESPECIFICA qual é união protegida pelo estado: entre homem e mulher. O texto pode não ser bom, mas é aquele. Tem de ser mudado? Que seja! Pelo Congresso.

Diferentemente de outros países de maioria católica (como Espanha, Portugal ou Argentina), cujos Parlamentos já haviam superado a restrição de direitos a homossexuais, o sistema político brasileiro -e não apenas o Legislativo- é ainda muito permeável a argumentos religiosos.
Coitados dos católicos! Lá estão eles apanhando da Folha, só para não variar! Pra começo de conversa, os evangélicos são até mais ativos nas restrições ao casamento gay. Melhor seria, então, falar em “cristãos”. Mas note, leitor: o jornal reconhece que, nos países citados, quem tomou a decisão foram os respectivos Parlamentos.

Nada indica que o Congresso estivesse disposto a contrariar essa poderosa corrente de opinião e aprovar alguma legislação com avanços significativos sobre o tema. A decisão do STF é histórica, portanto e mais uma vez, por reconhecer e reafirmar a laicidade do Estado brasileiro.
Nesse trecho, a Folha atinge o estado da arte porque esse é o argumento que justificou todas as ditaduras no Brasil e no mundo. Aliás, ele esteve na raiz do fechamento do Congresso nos tempos idos do famoso “Pacote de Abril” (pesquisem!). Como o Congresso, segundo a Folha, não queria “contrariar” a “poderosa corrente de opinião”, então o STF foi lá e contrariou por ele. Achando que já tinha argumentado com eficiência e suficiência, o redator não tem dúvida: saca a conjunção “portanto” e conclui que a decisão é “histórica”. Só que há uma probleminha aí: quem tem mandato para mudar a Constituição é o Congresso, não o Supremo.

O Supremo, dessa forma, adiantou-se na defesa de direitos individuais que parcelas crescentes da opinião pública almejavam ver reconhecidos, diante da omissão do Congresso. Uma democracia, para ser completa, precisa ter mecanismos como esse para impedir que grupos sociais, mesmo que majoritários, impeçam a garantia de direitos fundamentais de minorias.
Uma democracia, para ser completa, respeita a independência entre os Poderes. Se não respeita, então é manca e corre o risco de ser outra coisa. O que a Folha fez com esse editorial foi declarar a obsolescência do Congresso, QUE REPRESENTA O CONJUNTO DOS BRASILEIROS. O jornal prefere os 10 do STF como representantes de “parcelas crescentes da opinião pública”. Entendi: as parcelas crescentes podem mais do que o todo.

O Estadão, notável por editoriais sempre muito bem-pensados, escorregou miseravelmente desta vez. Leiam:
O contraste disso com a exemplar votação do Supremo - cujos membros, ao que se saiba, têm todos religião - equivale à proverbial passagem da noite para o dia. Ademais, a Corte tomou a si, quando provocada, uma incumbência que, pela ordem natural das coisas, cabia ao Congresso Nacional. Os políticos se acovardaram diante da demanda de uma parcela da população. Uns, por serem contrários a ela. Outros, indiferentes ou mesmo favoráveis, mas não engajados, para não comprar briga com aqueles, estando a grande maioria de ambos os lados no mesmo confortável barco governista. A omissão do Congresso mostra ainda uma vez a sua distância em relação às questões da vida real dos brasileiros e seu desinteresse em criar direitos - salvo em benefício próprio ou dos seus patronos.
São os mesmos, fracos e insustentáveis argumentos da Folha. Também ali se nota a censura à religião, como se essa fosse a questão. Também o Estadão investe contra o Congresso, tão cheio de vícios — e quem há de negar? — para justificar que o Supremo aja em seu lugar, usurpando uma de suas prerrogativas. Até parece que um Congresso que se cala diante dessa violência institucional poderá ser melhor um dia… Tende a piorar!

Nos dois editoriais, estão dadas as bases argumentativas para a defesa de ditaduras virtuosas. Alguns poderiam protestar: “Mas a causa que eles defendem é boa; ditaduras defendem causas ruins”. Errado! A questão é de método. A democracia também é um mecanismo de tomada de decisões, o pior deles, com exceção de todos os outros que têm sido tentados de tempos em tempos, como já disse Churchill. Golpear com “bons valores” os adversários, fraudando as regras democráticas, nada tem de meritório. Segundo Thomas Paine, devemos preservar até nossos inimigos da opressão se queremos garantir a própria liberdade, ou o expediente discricionário a que eventualmente recorrermos um dia se voltará contra nós.

Chegamos ao ponto, como se nota acima, em que editoriais de dois dos mais importantes jornais do país aplaudem o Supremo justamente porque ele atuou como se Legislativo fosse. Como os dois veículos concordam com o mérito da decisão, então a violação da prerrogativa de um Poder e a extrapolação da do outro lhes parecem obra do mais puro iluminismo.


"