A Charge minha de cada dia
Direito, Política e Sociedade.
Para os senadores do PSDB não há dúvida que o presidente do Senado, José Sarney, está envolvido em atos e operações incompatíveis com a conduta parlamentar e que mancham a imagem da Casa. Daí terem protocolado, nesta terça-feira (28), três representações contra ele no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, com vistas a um ou mais processos disciplinares e a punição de Sarney - até com a cassação do mandato.
Uma das representações trata da participação de Sarney no suposto desvio de recursos públicos da Fundação José Sarney, que seria dirigida pelo próprio senador. Tem como base reportagens publicadas pelos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo contendo denúncias consideradas como "graves e consistentes" pelo partido.
Os órgãos da imprensa afirmam ter indícios de que houve utilização indevida de recursos transferidos à fundação pela Petrobras. A entidade teria, por exemplo, recebido R$ 1,34 milhões da estatal, mas, em vez de utilizá-los na conservação de livros e na manutenção de um museu, teria patrocinado festa julinas e pago a empresas-fantasmas por serviços nunca prestados.
"Como se vê, é imprescindível que se instaure competente processo disciplinar para apurar a possível prática de conduta indigna por parte do senador José Sarney, que, por intermédio de sua fundação privada, teria desviado substanciosos recursos públicos", afirma o partido na representação.
O PSDB acrescenta que, além desses ilícitos, Sarney faltou com a verdade a seus pares, o que é punível com a perda do mandato. Na representação recorda-se que, em resposta às acusações, Sarney, por meio de nota assinada por sua assessoria, assegurou inicialmente que era "presidente de honra da fundação que leva seu nome, tendo sido seu fundador", mas que "não participa de sua administração, nem tem responsabilidade sobre ela". A mesma afirmação foi repetida, verbalmente, em Plenário.
Para o PSDB, é preciso investigar se Sarney faltou com a verdade, uma vez que os estatutos da fundação apontam o parlamentar como presidente vitalício da entidade e responsável por sua administração e finanças.
Atos secretos
Na representação relativa ao envolvimento de Sarney nos chamados atos secretos do Senado, o PSDB examina a irregularidade de nomeações de parentes ou afilhados políticos do senador para cargos em comissão. "Nada menos de 18 atos secretos, portanto ilegais, beneficiaram parentes ou adotaram medidas que, de alguma forma, favoreceram, direta ou indiretamente, o senador José Sarney", afirma a representação.
Eis os atos mencionados pelo PSDB:
1) Maria do Carmo Macieira, sobrinha de Sarney, foi nomeada por ato secreto no gabinete da senadora Roseana Sarney;
2) Vera Portela Macieira Borges, sobrinha de Sarney, foi nomeada por ato secreto no gabinete do senador Delcídio Amaral, em Campo Grande;
3) João Fernando Sarney, neto de Sarney, foi nomeado e exonerado por ato secreto do gabinete do senador Epitácio Cafeteira;
4) Rosângela Terezinha Michels Gonçalves, mãe de João Fernando Sarney, neto de Sarney, foi nomeada logo após a exoneração do seu filho;
5) Nathalie Rondeau, filha do ex-ministro Silas Rondeau e afilhado político de Sarney, foi nomeada para trabalhar no Conselho Editorial do Senado; Sarney preside o Conselho;
6) Amaury de Jesus Machado (conhecido como Secreta), funcionário da senadora Roseana Sarney na casa dela em Brasília, é lotado no gabinete da Senadora Roseana Sarney;
7) Sarney emprestou seu imóvel funcional ao ex- senador e seu aliado Bello Parga;
8) Elga Mara Teixeira Lopes, especialista em campanha eleitoral, foi nomeada e exonerada através de ato secreto entre o 1º e o 2º turno da campanha de Roseana Sarney para o governo do Maranhão, em 2006; um ato secreto cancelou a exoneração para preservar o salário de Elga;
9) Valéria Freire dos Santos, viúva de um ex-motorista de Sarney, mora há quatro anos num imóvel localizado no térreo de um dos prédios exclusivos para os senadores. Ocupa cargo comissionado no Senado Federal;
10) Fausto Rabelo Cosendey, gerente administrativo da empresa do neto de Sarney (Sarcris, no Maranhão) José Adriano Sarney, é lotado no gabinete do deputado Sarney Filho;
11) Isabella Murad, sobrinha de Jorge Murad (marido de Roseana e genro de Sarney), foi nomeada por ato secreto para o gabinete de Epitácio Cafeteira. Ela mora na Espanha;
12) Virgínia Murad de Araújo, prima de Jorge Murad (marido de Roseana e genro de Sarney), foi nomeada no gabinete da liderança do governo no congresso pela Roseana Sarney;
13) Ivan Celso, irmão de Sarney, teve cargo de confiança no Senado;
14) Fernando Nelmásio Silva Belfort, diretor executivo do museu e também mausoléu de Sarney, foi lotado na Liderança do Congresso Nacional;
15) Shirley Duarte de Araújo, cunhada de Sarney, foi lotada durante seis anos no gabinete da Senadora Roseana Sarney;
16) Senador José Sarney encabeça os atos que criaram pelo menos 70% dos cargos de direção da Casa;
17) Senador José Sarney recebia auxílio moradia no valor de R$ 3.800 mesmo tendo casa em Brasília;
18) Senador José Sarney ordenou que quatro servidores da área de segurança do Senado Federal fossem deslocados para reforçarem a segurança de sua residência no Maranhão;
A representação toca, ainda, na denúncia de envolvimento de Fernando Sarney, filho de Sarney, e o ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia na nomeação, por ato secreto, de Henrique Dias Bernardes, namorado da neta do presidente.
Apoiando-se também em reportagem de O Estado de S.Paulo, o PSDB afirma que Sarney participou das tratativas entre Fernando e Agaciel, como provariam gravações de diálogos telefônicos anexados aos autos. Os áudios foram obtidos pelo Estado dos autos do inquérito relativo à operação Boi Barrica, empreendida pela Polícia Federal para investigar ações das quais teria participado Fernando Sarney.
"Diante da matéria publicada, torna-se claro o conhecimento e a participação de Sarney, na lavratura intencional de atos secretos em conjunto com o ex-diretor-geral desta Casa, o Sr. Agaciel Maia", afirma a representação.
Crédito consignado
Uma terceira representação trata do suposto favorecimento ilegal da empresa de propriedade do neto de Sarney na concessão de empréstimos consignados a servidores do Senado Federal. Conforme reportagem do Estado, o neto de Sarney José Adriano Cordeiro Sarney é um dos operadores "do esquema" de crédito consignado na Casa.
A Polícia Federal teria apurado que, de 2007 até hoje, a Sarcris Consultoria, Serviços e Participações Ltda., empresa de José Adriano, recebeu autorização de seis bancos para intermediar a concessão de empréstimos aos servidores com desconto na folha de pagamento. Ao Estado, o neto de Sarney teria dito que seu "carro-chefe" no Senado seria o banco HSBC. Indagado sobre o faturamento anual da empresa, ele teria admitido ser "menos de R$ 5 milhões".
"A intermediação de empréstimos consignados se transformou numa mina de dinheiro nos últimos anos. Trata-se de um nicho de negócio que, no Senado, virou propriedade de familiares dos donos do poder. A PF investiga suspeitas de corrupção e tráfico de influência envolvendo o negócio", diz uma reportagem citada na representação.
Embora José Adriano negue que o fato de ser neto de José Sarney tenha favorecido a empresa, um dado chamou a atenção dos jornalistas, segundo o PSDB: em pelo menos dois casos, os bancos credenciaram primeiro a empresa do neto, e só depois é que foram autorizados a operar crédito consignado no Senado.
"Como se vê, há indícios de que as instituições bancárias interessadas em fornecer crédito consignado a funcionários do Senado Federal somente seriam autorizadas a fazê-lo caso contratassem a empresa do neto de Sarney, o que pode denotar que o mesmo utiliza de seu prestígio e poder para constranger tais instituições financeiras a sucumbir à empresa de seu neto", diz o texto da representação.
E acrescenta:
"Tal atitude pode configurar falta de dignidade no exercício do mandato, abuso de prerrogativas, ato de improbidade ao auferir enriquecimento ilícito por meio de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício do mandato, crime de concussão, corrupção passiva e advocacia administrativa".
segunda-feira, 27 de julho de 2009, 16:57 Online
Pesquisa diz que programa respondeu pelo aumento de aproximadamente 3 pontos na votação do presidente
Agência Brasil
Tamanho do texto? A A A A
Segundo o trabalho, o programa respondeu pelo aumento de aproximadamente 3 pontos percentuais na votação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno das eleições de 2006, marca superior ao impacto da expansão do Produto Interno Bruto (PIB) - soma das riquezas produzidas no país - de 0,34 ponto percentual.
Além disso, sustenta o economista Maurício Canêdo, da FGV, em 2002, Lula foi bem-sucedido em regiões mais urbanizadas e desenvolvidas do país. Em 2006, a base eleitoral migrou para regiões menos desenvolvidas. São as regiões mais dependentes do Estado e mais beneficiadas pelo Bolsa Família, programa lançado pelo governo em 2004, que atende a mais de 12 milhões de famílias em todos os municípios brasileiros.
"Apesar disso, nem o Bolsa-Família, nem o desempenho econômico explicam toda ou boa parte da migração do eleitorado do presidente Lula para as cidades mais pobres", afirma Canêdo.
Na elaboração do trabalho, o pesquisador consultou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para as variáveis eleitorais; o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para as variáveis geográficas, demográficas e socioeconômicas; e o Ministério do Desenvolvimento Social, para informações sobre a cobertura do programa.
Segundo o estudo, o aumento de 1 ponto percentual no número de beneficiários do programa elevou em 0,55 ponto percentual a votação de Lula em 2006, enquanto a mesma variação na taxa de crescimento econômico incrementou a votação em apenas 0,21 ponto percentual. O efeito do Bolsa Família fez a votação de Lula crescer em todos os municípios, mas o aumento foi maior justamente naqueles em que o seu desempenho foi pior em 2002.
"Em 2002 e em 2006, Lula ficou com aproximadamente 61% dos votos no segundo turno. Mas seu eleitorado, que tradicionalmente se concentrava nas regiões urbanas, migrou para as áreas mais pobres em 2006. No entanto, o Bolsa Família explica apenas parte dessa mudança", diz Canêdo.
Nas regiões Norte e Nordeste, o efeito do programa ficou acima do registrado nos demais estados do pais. Em Alagoas, por exemplo, o Bolsa Família aumentou em 8,17 pontos percentuais a votação de Lula, enquanto no Rio de Janeiro e em São Paulo, o incremento foi de 1,12 e 1,89 pontos percentuais respectivamente. Alagoas foi o estado onde o efeito do Bolsa Família mais contribuiu para a votação, seguido de Roraima (6,85%) e do Acre (6,53%).
O que explicaria a mudança no padrão de votação de Lula?, indaga o pesquisador. De acordo com ele, embora não seja capaz de responder definitivamente a essa pergunta, a pesquisa indica rumos. "Nos municípios mais ricos, possivelmente, uma das causas na piora do desempenho eleitoral de Lula é a frustração de seu eleitorado habitual com os escândalos ocorridos durante o primeiro mandato. Nos municípios mais pobres, o aumento da votação de Lula pode ser resultado do fato - identificado por alguns cientistas políticos - de que os eleitores dos municípios menos desenvolvidos, mais dependentes do Estado, seriam mais propensos a votar no candidato do governo."
Em plena crise, a taxa de desemprego recuou de 8,8% em maio para 8,1% em junho, como divulgou na semana passada o IBGE. Olhando por dentro da pesquisa, chamou a atenção o resultado da População Economicamente Ativa (PEA).
Ela mostra a quantidade de pessoas que estão trabalhando ou procurando emprego. Entre os anos de 2006 e 2008, a PEA sempre caiu no início do ano, mas se recuperou até junho, voltando para o mesmo patamar do final do ano. Ou seja, sofria uma queda por efeitos sazonais.
Este ano, isso ainda não aconteceu, sinalizando que a queda do desemprego está mais atrelada a menos gente procurando vagas do que a uma melhora no mercado de trabalho. Vejam no gráfico abaixo.
Quem viu as fotografias e leu o noticiário sobre a visita do presidente Luiz Inácio a Palmeira dos Índios, em Alagoas, deve ter estranhado exuberantes elogios (além da carona no Aerolula) ao ex-presidente Collor, extensivos a Renan Calheiros, que teve problemas na presidência do Senado. A que se pode juntar os elogios e o empenhado apoio que nestes dias deu a José Sarney, presidente do Senado, enrolado na questão dos atos secretos de nomeações para funções naquela casa do Congresso.
O Lula e o PT de hoje são irreconhecíveis em face do que disseram que seriam, no manifesto de fundação do partido, em 1980. Eles se tornaram interessantes enigmas para a compreensão dos nossos impasses políticos, os de uma história política que avança recuando. Em discurso de 1980, na Escola Superior de Guerra, o general Golbery do Couto e Silva, militar culto, ideólogo do regime instaurado pelo golpe de Estado de 1964, deu indicações sobre a armação do futuro político do País e do lugar que nele vislumbrara para Lula. O discurso está centrado nos requisitos da segurança nacional e se refere ao âmbito da liberdade política que romperia a dependência de facções da oposição em relação à polarização da Guerra Fria.
Para ele, a redução da liberdade política criara uma rede de organizações extrapolíticas de oposição ao regime. A abertura se justificava como meio de fazer com que os partidos renascessem "na plenitude de sua função de partidos", para que a política retornasse ao seu leito natural, forma de manter as oposições divididas. Dedica umas poucas palavras à "ala esquerdista da Igreja", e é quando cita Lula enquanto membro de uma elite sindical de líderes autênticos, "sem revanchismo ideológico". Lula "poderia ter sido" um desses líderes, diz Golbery, que se confessa desapontado com ele porque fora atraído "para as atividades mais políticas do que propriamente sindicais".
Intuitivo e prático, tudo sugere que Lula aos poucos compreendeu o plano de Golbery melhor do que o próprio Golbery. Era evidente a orfandade das esquerdas, que culminaria com a queda do Muro de Berlim no fim de 1989. No Brasil essa orfandade se traduzia numa fragmentação tão extensa que Paulo Vannuchi, hoje secretário de Direitos Humanos, chegou a escrever utilíssimo manual que mapeia e lista todos os grupos partidários da esquerda clandestina, indicando a origem de cada um como fragmento de outro. Sem passar pela aglutinação de ao menos parte dessa esquerda fragmentária, Lula nunca teria conseguido a legitimidade propriamente política que o tornaria a personagem que é.
Assim como Golbery, Lula também compreendeu que a Igreja Católica estava dividida em consequência das inovações do Concílio Vaticano II e que nela havia uma importante facção, que ia de leigos a bispos, ansiosa por aliar-se às esquerdas com base no capital político das comunidades eclesiais de base. A Igreja tinha seus motivos, temerosa de ver-se repudiada por ponderáveis parcelas da população, vitimadas por notórias carências sociais. A primeira manifestação da Igreja em favor da reforma agrária fora em 1950 e viera de um bispo conservador da diocese de Campanha (MG), dom Inocêncio Engelke, que alude em sua carta pastoral ao risco de que o êxodo de trabalhadores rurais para a cidade os colocasse à mercê do proselitismo comunista. É evidente que essa Igreja também compreendeu que Lula era um personagem politicamente à deriva ao qual poderia aliar-se, como se aliou.
Operário qualificado e bem pago de multinacional, Lula compreendia que o sindicalismo da era Vargas se tornava obsoleto e agonizava, impróprio para a nova militância do entendimento e da mesa de negociação. O sindicalismo lulista era apenas o instrumento da nova realidade das relações laborais, divorciadas da concepção de classes sociais, tendente ao fortalecimento das categorias profissionais e setoriais. Longe, portanto, do mito da greve geral, a greve política, mais de confronto com o Estado do que com o capital, que era a estratégia dos comunistas, fortes no ABC operário. Lula e o PT serão decisivos na demolição da esquerda característica e histórica.
O carisma crescente de Lula, a figura mítica buscada pelas esquerdas órfãs e pelo catolicismo social, foi fundamental para o salto de modernização política representado pelo surgimento do PT (e também pelo PSDB, entre outros partidos), com a abertura política promovida pela ditadura no marco das concepções de Golbery. Lula e o PT cresceram, aglutinando o que nem sempre corretamente se autodefine como esquerda. O manifesto de 2002, pelo qual o PT realinha suas orientações ideológicas a favor de uma generosa aliança com o capital e com as multinacionais, bem como com os grupos políticos de origem oligárquica, representa o cume na construção de esquerda do partido e o início do processo de sua desconstrução de direita. Ainda antes das eleições presidenciais daquele ano, Lula, falando a usineiros de açúcar e fornecedores de cana de Pernambuco e da Paraíba, fez a crítica do socialismo e lhes prometeu benefícios de política econômica, o que resultou na imediata adesão de todos a sua candidatura.
Daí em diante, Lula no poder e o próprio PT foram descartando pessoas e facções internas à esquerda de sua opção conservadora. Foram descartando também as organizações que atuam como movimentos sociais, abandonando ou atenuando programas e projetos. Inicialmente, para trazer o apoio do latifúndio e do grande capital a sua pessoa e a seu governo. Depois, para agregar a sua base política o que de mais representativo há do remanescente oligarquismo brasileiro e da obsoleta, e não raro corrupta, dominação patrimonial.
O solidário e empolgado abraço de Lula, com sorrisos, nesses três aliados, emblemáticos senadores da República, é sobretudo um fraterno e decisivo abraço no retrocesso histórico e nos reacionários arcaísmos da política brasileira. O general Golbery achou que se enganara. Não se enganou.
Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Autor de Fronteira - A Degradação do Outro nos Confins do Humano
Marcadores: política
Divulgação![]() | "Há milhares de garotas bonitas e empreendedoras por aí. Não sou um santo, eu imagino que vocês já tenham entendido isso." Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano, ironizando a publicação de conversas picantes que teria mantido |
Sexta-Feira, 24 de Julho de 2009 Versão Impressa
Tamanho do texto? A A A A
24 de julho de 2009
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi aconselhado por assessores a adotar um tom mais cauteloso na defesa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). A avaliação do Palácio do Planalto é de que Lula já fez o que tinha de fazer pelo aliado na temporada de recesso e não deve mais comentar cada denúncia, para não jogar a crise política em seu colo nas férias parlamentares.
Em conversas reservadas, ministros admitem que a situação de Sarney pode se complicar e o presidente precisa deixar a "blindagem" do senador a cargo do Conselho de Ética. Mas Lula ainda não seguiu a orientação. Depois de dizer que Sarney não pode ser tratado como "pessoa comum" e de pedir ao Ministério Público cuidado com a biografia do investigado, o presidente afirmou na quinta que "é preciso saber o tamanho do crime" para uma investigação correta.
Boi Barrica - Sarney fez chegar a Lula sua insatisfação com o ministro da Justiça, Tarso Genro (PT). Para o presidente do Senado, gravações feitas pela Polícia Federal durante a Operação Boi Barrica não poderiam ter "vazado" para a imprensa. A um grupo de amigos Sarney disse que a Polícia Federal "politizou" a interceptação e suspeita que o PT esteja alimentando a série de denúncias contra ele.
Tarso afirmou que enquanto a investigação esteve sob cuidado exclusivo dos agentes federais, por dois anos e meio, nada foi divulgado. "Quando o processo foi para o Ministério Público e ficou disponível para as partes interessadas, aí começou a divulgação", observou o ministro da Justiça. "Eu estou muito tranquilo: a Polícia Federal é isenta e não participa de debates e ideológicos."
(Com agência Estado)
Marcadores: política
(leia primeiro o post abaixo)
Não é de hoje que o governo transfere verba da Saúde para o Bolsa Família. Segundo a metafísica lulista, é tudo a mesma coisa, "tudo para o social", não é isso? Mas não é evidentemente.
Ainda que o Bolsa Família tenha sua razão de ser, claro!, não é um programa formador, que estrutura a ação social, como é o investimento em Saúde. Há lugar no Brasil - e nos países com índices de pobreza iguais ou superiores aos do Brasil - para os dois tipos de gastos sociais: os universais, destinados ao atendimento da população como um todo (saúde, educação etc), os focados, voltados para os extremos de pobreza - é o caso do Bolsa Família.
Um governo só não pode fazer a besteira de tomar um pelo outro. Se o investimento no atendimento universal não atende às urgências, é claro que o atendimento de urgência não forma uma base sólida de prestação de serviço. Assim, é conveniente que os recursos não se misturem, como faz o governo Lula.
Ocorre que a Saúde é uma área que costuma mais desgastar os governos do que lhes trazer benefícios eleitorais. São tão grandes e graves as deficiências, que, por mais que se invista - e é necessário investir -, haverá sempre um contencioso grande, reclamações em penca, muito por fazer. E o "Bolsa Família"? Ah, no caso do Bolsa Família, basta dar o dinheiro e correr para o abraço. Até o ministro Temporão admitiu num programa Roda Viva de que participei que foi o então ministro José Serra que estruturou a rede de atendimento à Saúde no país. Há muito por fazer, mas ele partiu do quase nada. E o governo Lula praticamente congelou o que havia, a despeito da demanda crescente.
Sim, são iniciativas com efeitos distintos: o dinheiro de um Bolsa Família, na forma como está estruturado o programa, tem de ser sempre renovado porque ele não cria condições ou estímulo para mudar as causas geradoras de pobreza. Ao contrário: contribui para eternizá-la se não há, junto, programas de qualificação profissional e de inserção dos atendidos no mercado - as tais "portas de saída", que nunca foram criadas. O investimento na infra-estrutura da Saúde, ao contrário, é permanente.
Por que Lula não trocaria o longo prazo pelo curto prazo? Se não o fizesse, não seria Lula. Quando se diz que o Bolsa Família é meramente assistencialista, é óbvio que não se está dizendo que o programa é desnecessário ou que tem de acabar. Essa é a distorção lulesca. Quando se afirma esse aspecto assistencialista, no mais das vezes, o que se quer é aprimorá-lo, o que Lula jamais vai fazer. Na forma em que está, é um mal que rende uma montanha de votos.
A Saúde que se dane!
Marcadores: política
Um dia depois da Marcha dos Cem Mil de Honduras contra a volta de Manuel Zelaya ao país, partidários do ex-presidente paralisaram estradas e hospitais do Instituto HondurenHo de Seguro Social (IHSS) — é o SUS deles — e também setores do Hospital Escola. As consultas e as cirurgias foram suspensas, punindo, evidentemente, a população pobre.
As escolas públicas também amanheceram tomadas pelos sindicalistas, informa o jornal El Heraldo.hn, que, no início da semana, haviam anunciado a greve para quarta ou quinta. A obstrução das estradas se dá em vários pontos do país. Entre eles, está a saída de Tegucigalpa até o norte de Honduras, onde militantes da Confederação Unitária de Trabalhadores, a Central Geral de Trabalhadores e a Confederação dos Trabalhadores de Honduras mantêm paralisado o tráfego.
Tais ações são parte do Plano Caracas, criado por Chávez e anunciado por Zelaya, para levar o país ao confronto, o que, imaginam, facilitaria a volta ao país do candidato a ditador. A ordem dos dois delinqüentes é partir para o confronto com as Forças Armadas. Chávez quer o maior número possível de vítimas para caracterizar o governo provisório de Honduras como uma ditadura.
Marcadores: Estado de Direito, Estado Policial, política
(leia primeiro o post abaixo)
O DEM resolveu recorrer ao STF contra as cotas raciais implementadas nas universidades públicas! Salve! Ainda há advogados em Berlim! Ainda há quem se levante contra a inconstitucionalidade em Berlim! Ainda há partidos em Berlim! Vamos ver se ainda há juízes em Berlim!
Das muitas flagrantes inconstitucionalidades com as quais o Brasil está se acostumando a viver — neste nosso bolivarianismo light, liofilizado, só aguardando a água fervente dos movimentos sociais para fazer um sopão ao gosto chavista —, a instituição de cotas raciais é certamente a mais escandalosa porque, como deixa clara a ação ajuizada pelo DEM, agride direitos fundamentais, alguns deles, entendo, cláusulas pétreas da Constituição. Se todos os homens são iguais perante a lei, não será a lei a criar a desigualdade para que, então, a igualdade se realize. Trata-se, obviamente, de uma estupidez.
O princípio, no entanto, que parece tão básico, tão evidente, tão autodemonstrável, está sujeito, como sabem, a controvérsias. Porque também o Supremo Tribunal Federal está sujeito à contaminação do populismo, segundo o qual os juízes têm de ouvir a voz das ruas. E não têm. Juízes têm de ser surdos para o alarido das ruas e de ter olhos bem abertos para o texto legal.
Algumas manifestações que vêm da nossa Corte Suprema preocupam. Essa história das ruas, como sabem, é de autoria de Joaquim Barbosa. Outro companheiro seu, Ayres Britto, não faz tempo, comentando as decisões estrambóticas do TSE, que deu posse a "governadores" que nunca foram eleitos, afirmou num artigo em jornal que se tratava de "uma solução democrática em menor extensão". Que diabo será isso? Será como uma "meia democracia"? Uma "meia democracia" é diferente de uma "meia ditadura'? Fiz até um vermelho-e-azul, à época, para comentar o seu texto.
Por que lembro esses eventos? Porque há uma corrente de juristas, especialmente aqueles que andaram namoricando o Direito Achado na Rua, para a qual pouco importa a letra da lei, mas sim o espírito de justiça que deveria animá-la. Ora, quem, numa democracia, se desapega do que está escrito para se apegar ao que acha que deveria estar escrito abandona a ordem legal e escolhe o arbítrio — que imagina ser o "bom arbítrio" porque seu.
O onguismo que vive da proxenatagem dos "oprimidos' e os setores politicamente corretos da imprensa vão se assanhar certamente, porque não vêem mal nenhum em se fazer um pouco de injustiça em nome de uma suposta 'justiça maior". Números serão fabricados provando que o cotismo é eficiente etc. Ainda que fossem verdadeiros, a questão essencial não estaria sendo tratada: numa democracia, é legítimo que se subtraiam privilégios, mas não é legítimo que se subtraiam direitos de forma seletiva.
Na esfera individual, quem deixou de entrar na universidade porque o sistema de cotas lhe tomou a vaga teve o seu direito roubado, aviltado. No que diz respeito à sociedade, o Supremo tem a oportunidade histórica de deixar claro que as práticas que opõem brasileiros a brasileiros não nos conduz a um bom futuro.
Sim, ainda há juízes em Berlim. Tomara que em número suficiente.
Marcadores: Dignidade humana, Direito
Ayres Britto durante sessão do TSE: "A agilidade é o nosso mérito. Em qual lugar do mundo se julga cinco governadores num único semestre?"
O rigor do TSE com a classe política, que resultou, desde 2000, na casssação de mais de 660 governadores, prefeitos, senadores, deputados federais, estaduais e vereadores, não impede reviravoltas em julgamentos, o que tem provocado insegurança entre os políticos que não sabem mais se serão mantidos até o fim de seus mandatos.
Apenas este ano, cinco governadores foram julgados e três deles tiveram mandatos cassados. A expectativa é que o TSE casse um quarto governador neste ano, Ivo Cassol (PP), de Rondônia. Ele é o próximo a ser julgado e, como as acusações são muito semelhantes àquelas que pesaram contra o senador Expedito Junior, cassado em 2008, o tribunal tende a seguir na mesma linha.
Durante julgamento do mandato do governador de Santa Catarina, Luiz Henrique (PMDB), o tribunal partiu de uma votação inicial com três votos a favor de sua cassação para um placar final de seis votos a um pela absolvição. Essa reviravolta evidenciou que os ministros seguem critérios distintos. Segundo advogados que atuam no TSE e pediram para não serem identificados, há dois tipos de ministros na Corte: formalistas e rigorosos.
Os formalistas são aqueles que precisam de provas cabais para as cassações. O caso mais contundente de julgamento excessivamente "formalista" no TSE ocorreu em 2004, quando o tribunal absolveu o então governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, por cinco votos a um. Ele respondeu a 33 acusações, das quais a mais forte era a de uso da máquina administrativa para contratar empresas na campanha. Apesar de o Ministério Público ter obtido notas fiscais e cheques indicando suposto pagamento irregular a empresas durante as eleições, a maioria dos ministros do TSE entendeu que faltou laudo que comprovasse autenticidade dos documentos.
Após absolver Roriz, o TSE, ainda em 2004, deu clara demonstração em sentido contrário, sendo rigoroso com os políticos. O tribunal cassou o senador João Capiberibe e sua mulher, a deputada federal Janete Capiberibe, ambos do PSB do Amapá, semanas depois de julgar Roriz. Duas provas pesaram naquele julgamento. Primeiro, o TSE considerou o depoimento de duas eleitoras que teriam recebido R$ 26 cada uma para votar no casal. Depois, acharam muito grave o resultado de ação de busca e apreensão de documentos no comitê de campanha de Capiberibe que encontrou R$ 15 mil em dinheiro, vales-combustível e lista de eleitores para os quais esses valores seriam entregues.
Essas nuances estão tornando os julgamentos imprevisíveis. Em agosto de 2007, três ministros do TSE concluíram que Luiz Henrique deveria ser cassado pelo uso de meios de comunicação para divulgar ações de seu governo. No entanto, o julgamento foi interrompido porque, no ano seguinte, o TSE verificou que deveria cumprir uma formalidade e notificar o vice-governador, Leonel Pavan (PSDB), para que ele também respondesse as acusações. O fato é que, quando o governador de Santa Catarina foi julgado, em maio, houve mudança radical no placar. Seis ministros do TSE entenderam que não houve provas concretas de que os jornais foram utilizados pela campanha.
Entre a alteração no placar envolvendo Luiz Henrique, o TSE cassou dois governadores: Jackson Lago (PDT), do Maranhão, e Cássio Cunha Lima (PSDB), da Paraíba. Lima foi cassado, dentro de um espírito rigoroso do TSE, que considerou a distribuição de cerca de R$ 3,5 milhões em cheques para eleitores por meio de programa assistencial um abuso de poder econômico e político.
Lago também caiu por causa desse rigor. Ele foi acusado de ter se beneficiado de convênios de seu antecessor, o governador José Reinaldo Tavares (PSB). Pesou contra Lago, o fato de Tavares ter pedido votos para ele em comícios no interior.
Após cassarem Lima e Lago, os ministros absolveram Luiz Henrique e o governador do Amapá, Waldez Goes (PDT). Góes foi acusado de promover reunião com 300 militares em clube da PM para pedir votos e de esconder material de campanha. A participação dele não foi comprovada e o TSE o absolveu.
De fato, é no conflito dessas linhas de atuação - formalista e rigoroso - que uns governadores são absolvidos e outros, cassados. O presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto, segue a linha rigorosa. Para ele, é importante verificar a totalidade dos atos do político durante a campanha, ou o chamado "conjunto da obra". "O direito são os fatos e as suas circunstâncias", afirmou Britto, citando o filósofo Ortega y Gasset. O ministro lembra que o TSE julgou cinco governadores num semestre. "A agilidade é o nosso mérito. Em qual lugar do mundo se julga cinco governadores num semestre?"
O TSE também é visto pelos políticos como um tribunal com três Poderes. Além de julgar, possui funções administrativas, ao presidir e organizar as eleições, e também legislativas, ao baixar resoluções a respeito da eleição, fixando prazos, datas e até parâmetros para a formação de alianças. Britto discorda dessa visão de que o TSE é uma Corte com três Poderes. "Nós somos julgadores", enfatizou. "Somos um tribunal. Temos funções administrativas, mas elas correm junto com a nossa função jurisdicional."
Marcadores: Estado de Direito, política
Marcadores: política
Marcadores: Direito
segunda-feira, 20 de julho de 2009, 17:19 Online
Após impasses, comissão foi instalada e terá a base governista no comando dos trabalhos; CPI começa em agosto
Tamanho do texto? A A A A
Pelo requerimento, caberá à comissão apurar:
1 - Indício de fraude nas licitações para a reforma de plataforma para a exploração de petróleo, apontada na operação de águas profundas da Polícia Federal;
2 - Graves irregularidades nos contratos de construção de plataformas, apontadas pelo relatório pelo Tribunal de Contas da União;
3 - Indício de superfaturamento na construção da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, apontada em relatório do Tribunal de Contas da União;
4 - Denúncia de desvio de royalties de petróleo, apontada pela Operação Royalties da Polícia Federal;
5 - Denúncia de fraude do Ministério Público Federal envolvendo pagamentos, acordos e indenizações feitos pela ANP a usineiros;
6 - Denúncia de utilização de artifícios contábeis que resultaram no recolhimento de impostos e contribuições de R4 4,3 bilhões;
7 - Denúncia de irregularidade no uso de verba de patrocínio da estatal para bancar festas no Nordeste.
Governistas e o comando da CPI
O senador João Pedro (PT-AM) foi eleito para presidir a CPI da Petrobras derrubando o candidato oposicionista Álvaro Dias (PSDB-PR) por 8 votos a 3 - exatamente o número de senadores da banda governista.
Para relatar os trabalhos, foi escolhido o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).
Crédito: Andre Dusek/AE- Senadores da oposição brincam com petista em sessão que leu requerimento
Com maioria expressiva na CPI (oito do total de 11 votos), os líderes governistas colocaram em campo a tropa de choque para dificultar as investigações. Uma das estratégias da base aliada para embaralhar o trabalho da comissão é propor que as apurações sobre a Petrobras retrocedam ao governo de Fernando Henrique Cardoso.
TCU e a estatal
Uma investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) aponta que a Petrobras, protegida por um regulamento próprio, tem usado com frequência contratos turbinados por termos aditivos que elevam custos de obras e serviços da estatal.
Mesmo quando não há aditivos, há estouros de orçamento de mais de 50% dos valores iniciais programados. É o que acontece com um gasoduto e uma plataforma, orçados em R$ 1,8 bilhão, cujo custo já chega a R$ 3,6 bilhões, revelou reportagem do Estado.
O aditivo é uma espécie de anexo ao contrato original. Pode ser usado para multiplicar os valores de obras e serviços e, assim, engordar os pagamentos às empreiteiras contratadas pela estatal, muitas delas sem licitação.
Petrobras e o governo FHC
Com ampla maioria na CPI, o governo deixou claro que vai para o enfrentamento com a oposição: indicou sua tropa de choque para participar das investigações e blindar a Petrobras e, agora, faz ameaças.
Acho que temos de ir no passado da Petrobras e investigar coisas como o acidente da plataforma P-36, gestores da estatal durante o governo Fernando Henrique, além de outros acidentes graves que ocorreram", afirmou João Pedro.
Em 2001, a plataforma P-36, na bacia de Campos (RJ), afundou após três explosões, deixando 11 mortos.
Requerimentos e Fundação Sarney
A CPI da Petrobras recebeu 84 requerimentos em dois dias de atividade. O levantamento é da secretaria que cuida do funcionamento das CPIs no Senado. Entre os requerimentos está o do vice-líder do PSDB, Álvaro Dias (PR), que pede ao ministro da Cultura, Juca Ferreira, o envio de cópias de todas as prestações de contas da Fundação José Sarney que dizem respeito às ações financiadas pela estatal. As denúncias, reveladas em reportagem do Estado, mostram que a entidade teria feito uso irregular de recurso repassado pela Petrobras à fundação em 2005.
A Fundação José Sarney teria desviado R$ 500 mil da verba de R$ 1,3 milhão recebida da Petrobras, a título de patrocínio cultural, para empresas fantasmas. "Não seria desviar o foco, seria ampliar o leque para providências", afirmou o autor do requerimento da CPI, senador Álvaro Dias (PSDB-PR), ao estadao.com.br.
No entanto, o senador acredita que o caso seja apurado antes no Conselho de Ética, instalado nesta terça-feira também. "Assunto estará na CPI mas antes estará no conselho de Ética. Hoje solicitei documentos da própria fundação e ao Ministério da Cultura. Hoje um grande número de brasileiros sabe que há irregularidades na Petrobras e vamos alargar isto", defende.
Segundo reportagem do Estado, do total de R$ 1,3 milhão repassado pela estatal, pelo menos R$ 500 mil foram parar em contas de empresas prestadoras de serviço com endereços fictícios em São Luís (MA) e até em uma conta paralela que nada tem a ver com o projeto. Uma parcela do dinheiro, R$ 30 mil, foi para a TV Mirante e duas emissoras de rádio, a Mirante AM e a Mirante FM, de propriedade da família Sarney, a título de veiculação de comerciais sobre o projeto fictício.
Pré-sal imune
O diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme Estrella, negou que a CPI irá atrapalhar os investimentos da empresa, principalmente na exploração da camada do pré-sal, localizada abaixo do leito marinho.
Marcadores: política
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 8 de Julho de 2009
Queridos irmãos e irmãs!
A minha nova Encíclica Caritas in veritate, que ontem foi oficialmente apresentada, inspira-se na sua visão fundamental num trecho da carta de São Paulo aos Efésios, no qual o Apóstolo fala do agir segundo a verdade na caridade: "praticando a verdade — ouvimo-lo agora— cresceremos em todas as coisas pela caridade n'Aquele que é a Cabeça, o Cristo" (4, 15). A caridade na verdade é por conseguinte a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. Por isso, em volta do princípio "caritas in veritate", move-se toda a doutrina social da Igreja. Só com a caridade, iluminada pela razão e pela fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de valor humano e humanizante. A caridade na verdade "é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores" (n. 6). A Encíclica recorda imediatamente na introdução dois critérios fundamentais: a justiça e o bem comum. A justiça é parte integrante daquele amor "com os factos e na verdade" (1 Jo 3, 18), à qual exorta o apóstolo João (cf. n. 6). E "amar alguém é desejar o seu bem e comprometer-se eficazmente por ele. Ao lado do bem individual, há um bem relacionado com o viver social das pessoas... Ama-se tanto mais eficazmente o próximo quanto mais nos comprometemos" pelo bem comum. Portanto, são dois os critérios operativos, a justiça e o bem comum; graças a este último, a caridade adquire uma dimensão social. Cada cristão— diz a Encíclica— é chamado a esta caridade, e acrescenta: "É este o caminho institucinal... da caridade" (cf. n. 7).
Como outros documentos do Magistério, também esta Encíclica retoma, continua e aprofunda a análise e a reflexão da Igreja sobre temáticas sociais de interesse vital para a humanidade do nosso século. De modo especial, retoma quanto escreveu Paulo VI, há mais de quarenta anos, na Populorum progressio, pedra miliar do ensinamento social da Igreja, na qual o grande Pontífice traça algumas linhas decisivas, e sempre actuais, para o desenvolvimento integral do homem e do mundo moderno. A situação mundial, como demonstra amplamente a crónica dos últimos meses, continua a apresentar grandes problemas e o "escândalo" de desigualdades clamorosas, que permanecem apesar dos compromissos assumidos no passado. Por um lado, registam-se sinais de graves desequilíbrios sociais e económicos; por outro, invocam-se de várias partes reformas que não podem continuar a ser adiadas para colmar o abismo no progresso dos povos. O fenómeno da globalização pode, para esta finalidade, constituir uma real oportunidade, mas para isso é importante que se lance mão a uma profunda renovação moral e cultural e a um discernimento responsável sobre as opções a serem feitas para o bem comum. Um futuro melhor para todos é possível, se for fundado na redescoberta dos valores éticos fundamentais. Isto é, é necessária uma nova projectualidade económica que redesenhe o desenvolvimento de modo global, baseando-se no fundamento ético da responsabilidade diante de Deus e do ser humano como criatura de Deus.
Certamente aEncíclica não pretende oferecer soluções técnicas às vastas problemáticas sociais do mundo de hoje — não é esta a competência do Magistério da Igreja (cf. n. 9). Mas ela recorda os grandes princípios que se revelam indispensáveis para construir o desenvolvimento humano dos próximos anos. Entre eles, em primeiro lugar, a atenção à vida do homem, considerada como centro de todo o verdadeiro progresso; o respeito do direito à liberdade religiosa, sempre estreitamente relacionado com o progresso do homem; a rejeição de uma visão prometeica do ser humano, que o considere artífice absoluto do próprio destino. Uma confiança ilimitada nas potencialidades da tecnologia no final revelar-se-ia ilusória. São necessários homens rectos quer na política quer na economia, que sejam sinceramente atentos ao bem comum. Em particular, considerando as emergências mundiais, é urgente chamar a atenção da opinião pública para o drama da fome e da segurança alimentar, que investe uma parte considerável da humanidade. Um drama destas dimensões interpela a nossa consciência: é necessário enfrentá-lo com determinação, eliminando as causas estruturais que o provocam e promovendo o desenvolvimento agrícola dos países mais pobres. Tenho a certeza de que este caminho de solidariedade ao desenvolvimento dos países mais pobres ajudará sem dúvida a elaborar um projecto de solução da crise global em curso. Sem dúvida deve ser revalorizado atentamente o papel e o poder político dos Estados, numa época em que existem de facto limites à sua soberania devido ao novo contexto económico-comercial e financeiro internacional. E por outro lado, não deve faltar a participação responsável dos cidadãos na política nacional e internacional, graças também a um renovado empenho das associações dos trabalhadores chamadas a instaurar novas sinergias a nível local e internacional. Desempenham um papel de primeiro plano, também neste campo, os meios de comunicação social para o potenciamento do diálogo entre culturas e tradições diversas.
Querendo portanto programar um desenvolvimento não viciado pelas disfunções e deturpações hoje amplamente presentes, impõe-se da parte de todos uma séria reflexão sobre o próprio sentido da economia e sobre as suas finalidades. É o estado de saúde ecológica do planeta que o reclama; é a crise cultural e moral do homem, que sobressai com evidência em todas as partes do globo, que o exige. A economia precisa da ética para o seu correcto funcionamento; precisa de recuperar o importante contributo do princípio de gratuidade e da "lógica da doação" na economia de mercado, onde a regra não pode ser unicamente o lucro. Mas isto só é possível graças ao compromisso de todos, economistas e políticos, produtores e consumidores e pressupõe uma formação das consciências que dê força aos critérios morais na elaboração dos projectos políticos e económicos. Justamente, de várias partes se faz apelo ao facto de que os direitos pressupõem deveres correspondentes, sem os quais os direitos correm o risco de se transformarem em arbítrio. É necessário, repete-se cada vez mais, um estilo de vida diferente da parte de toda a humanidade, no qual os deveres de cada um para com o ambiente se unam com os deveres para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros. A humanidade é uma só família e o diálogo fecundo entre fé e razão não pode deixar de a enriquecer, tornando mais eficaz a obra da caridade no social, e constituindo o quadro apropriado para incentivar a colaboração entre crentes e não-crentes, na compartilhada perspectiva de trabalhar pela justiça e pela paz no mundo. Como critérios-guia para esta interacção fraterna, naEncíclica indico os princípios de subsidiariedade e de solidariedade, em estreita relação entre eles. Indiquei por fim, face às problemáticas tão vastas e profundas do mundo de hoje, a necessidade de uma Autoridade política mundial regulamentada pelo direito, que seja conforme com os mencionados princípios de subsidiariedade e solidariedade e firmemente orientada para a realização do bem comum, no respeito das grandes tradições morais e religiosas da humanidade.
O Evangelho recorda-nos que nem só de pão vive o homem: não se pode satisfazer a sede profunda do seu coração apenas com bens materiais. O horizonte do homem é indubitavelmente mais alto e mais vasto; por isso, qualquer programa de desenvolvimento deve ter presente, paralelamente ao crescimento material, também o espiritual da pessoa humana, que é dotada precisamente de alma e corpo. É este o desenvolvimento integral, ao qual a doutrina social da Igreja se refere constantemente, desenvolvimento que tem o seu critério orientador na força propulsora da "caridade na verdade". Queridos irmãos e irmãs, rezemos para que também esta Encíclica possa ajudar a humanidade a sentir-se uma só família empenhada em realizar um mundo de justiça e de paz. Oremos para que os crentes, que trabalham nos sectores da economia e da política, sintam como é importante o seu testemunho evangélico coerente no serviço que prestam à sociedade. Sobretudo, convido-vos a rezar pelos Chefes de Estado e de Governo do G8 que se encontram nestes dias em L'Aquila. Desta importante Cimeira mundial possam surgir decisões e orientações úteis para o verdadeiro progresso de todos os Povos, especialmente dos mais pobres. Confiamos estas intenções à intercessão materna de Maria, Mãe da Igreja e da humanidade.
Saudação
Acolho cordialmente todos os peregrinos de língua portuguesa nomeadamente os grupos vindos do Brasil e de Portugal para encontrar o Sucessor de Pedro. Que todos vós possais, em Cristo, viver a caridade na verdade, contribuindo assim para uma real promoção do bem comum. Jesus é o Homem novo que abre as portas para a verdadeira renovação da humanidade. Desça a Sua Bênção sobre cada um de vós e vossas famílias.
© Copyright 2009 - Libreria Editrice Vaticana